Depois do “revival” do Resina em 1998 eu voltei a ficar sem banda. Deixei a guitarra de lado mais uma vez e buscava um desenvolvimento como baixista. Comecei a ouvir black music em doses cavalares nessa época, algo que sempre gostei, mas nunca tive muita oportunidade de tocar, principalmente em banda.

Entenda-se por black music coisas como funk (aquele do James Brown, é bom registrar), soul, disco e misturas disso tudo com MPB de mestres como Gilberto Gil, Djavan e Ed Motta. Descobri e também comecei a ouvir muito Jamiroquai, antes da banda estourar por aqui. Procurava em feirões e promoções CDs que tivessem Stevie Wonder, Chic, Earth, Wind & Fire e afins.
Foi mais ou menos nesse período que, junto ao xará e compadre Cleber (sem acento) Octaviano, que estava trabalhando comigo no jornal, fizemos algumas apresentações no antigo Ponto de Encontro, que estava sob a direção do Oswaldo “Peixe” Zuzi. Na primeira vez fomos eu no violão, ele na guitarra e um teclado Casiotone como percussão. Depois, agregamos o Fernando Vannucci na timba e tivemos até a participação de uns bam-bam-bans de Santa Rita, como o saudoso Gustavinho e um rapaz que tocava trompete (que não lembro o nome). Demos o nome da banda de Hora H.
Com o passar dos dias, a vontade de arrumar uma banda para tocar só aumentava, mas não via nada no horizonte. Às sextas-feiras eu dava uma mão aos amigos João Pinto, Fernando Vannucci e Albino “Biliscão” Bruno Júnior no Sexta Bar. Ajudava no balcão mesmo, servindo doses. Como eu era muito generoso, me passaram depois para o balcão da cerveja.
O Sexta Bar tinha um equipamento de som bem razoável para a época. Às vezes trazia alguma banda, em outras era som eletrônico. E foi assim que, aos poucos, comecei a atuar como DJ da casa. A sorte que não eram pick-ups e bolachões, mas sim dois toca-CDs portáteis, bem mais fáceis de lidar. Levava aquele monte de CDs e agitava a pista, mesclando coisas novas com antigas, nacionais e internacionais, rock, pop, disco. Era bem eclética a seleção. E eu passei a ter um prazer grande em fazer aquilo, apesar de alguns (vários) tropeços na execução. Mas todo mundo sabia que eu não era nenhum profissional da coisa e ninguém ligava.
Um dia contrataram uma banda de pagode para tocar no Sexta Bar. O grupo se chamava Artimanha (ou Art Manha, sei lá). Uns garotos conhecidos, uns amigos no meio e outros que eu não conhecia. Levaram bastante gente ao show. Na época, o chamado “pagode mauricinho” estava arrebentando nas rádios, com bandas como SPC, Molejo, Art Popular, entre inúmeras outras. Eu não gostava, mas era impossível ficar sem ouvir um “Marrom Bombom” e coisas do tipo em qualquer lugar que tivesse um som ao vivo.
Até que aconteceu. Numa segunda ou terceira apresentação do grupo no Sexta Bar, o baixista dos garotos, o Faria, que não era tão garoto, não iria mais tocar. Foi então que o Biliscão veio pedir pelamordedeus para que eu tapasse o buraco. “É só esta noite! Eu te sirvo cuba de graça a noite inteira! Quebra essa! Coitados dos meninos, é tudo gente boa!”, foram alguns dos argumentos indecentes apresentados pelo Billy.
Eu sempre adorei bossa nova e um certo tipo de samba, de gente como João Bosco, Djavan, Gil, Caetano, Chico Buarque. Mas, pagode mauricéba? E a minha reputação roqueira? “O Andrezinho foi tocar sertanejo, por que você não pode tocar pagode?” Ok, Billy, me convenceu (principalmente o argumento da cuba, claro). E eu estava louco pra tocar qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo!
E lá fui eu dividir o minúsculo palco do Sexta Bar com uns 18 caras numa banda de pagode...
Obs: esta é a coluna de número 100 que escrevo para o JP desde 2016. E a 29ª da saga músico-pessoal. Escrever estas mal traçadas é um dos meus maiores prazeres. Esta semana o amigo Gilcimar Xavier perguntou quando sai o livro e o André Bellini gostou da ideia. Vamos pensar com carinho. Mas, desde já, meus eternos agradecimentos à família Bellini pelo espaço nobre do glorioso Jornal do Porto e aos fiéis 42 leitores e meio que tenho.

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