Depois de cinco colunas prevendo o futuro e falando um pouco sobre política e outras groselhas, na ânsia de superar a inatingível marca dos 50 leitores e meio, esta primeira semana do ano é ótima para retomar a saga músico-pessoal. Para relembrar onde paramos, no final da parte 5 narrei que aos 14 anos de idade, no Natal, ganhei minha primeira guitarra, uma Giannini Les Paul preta, comprada de segunda mão de um grande amigo de Pirassununga, o Nandão Benini.

Aquilo já tinha sido uma grande surpresa, porque não era comum um moleque ter uma guitarra. Meu irmão mais velho não tinha, embora tivesse aquele famoso violão Ovation, mas foi meio que um presente-herança do irmão americano Todd.
Parafraseando mestre Zagallo, aí sim fomos novamente surpreendidos quando meu irmão Vlamir, César e Marco Riolino me convidaram para assumir o baixo no Fruto da Imaginação, no lugar do gênio Valdair Casemiro. Era finalzinho de 1984. No primeiro semestre de 85 meu irmão iria morar num rancho à beira do Moji, enquanto terminava as últimas matérias do curso de Economia na Unicamp e fazia um estágio na Santa Marina, atual Verallia. Eu estava indo para o primeiro colegial, no Kennedy, em Pirassununga.
Eu adorava o som do contrabaixo. Aprendi a gostar e identificar de tanto ouvir Yes e mestre Chris Squire. “Mas você tinha acabado de ganhar uma guitarra!” Sim, mas eu ia tocar numa banda de verdade, com 14 anos!!! Era algo muito além do que eu esperava para aquele momento. E era uma banda já conhecida na cidade e região, que eu ia a todos os shows desde os meus 10 anos, que eu assistia a todos os ensaios possíveis.
Aceitei na hora, claro. Acho que travei o maxilar de tanto tempo que fiquei com um sorriso no rosto. Bem, mas e o baixo? Ninguém da banda tinha um. Aí entra o lado genial do César Riolino. Ele pegou o braço e a eletrônica de um Giannini Rickenbacker sei lá de quem, fez um corpo de madeira em formato de violão, com uns 2 cm de largura, adaptou os captadores e... voilà!
Quer dizer, não foi bem essa maravilha toda. O som do mizão, a corda mais grave das quatro existentes no instrumento, talvez a mais importante, não saía. Era um póf póf póf. E daí, quem ligava? Estava tudo lindo, tudo ótimo, divino e maravilhoso.
Começamos os ensaios no rancho, à noite. Meu irmão no Ovation, o César na minha Lespa, o Marco na bateria e eu no baixo. Tinha acabado de acontecer o primeiro Rock In Rio. O rock BR estava estourando. Então o repertório (“setlist” é coisa deste século) tinha alguns clássicos dos shows do Fruto – músicas próprias e dos medalhões da MPB – e começávamos a tirar os roquinhos do momento, entre outras coisas. Tudo sem o mizão.
O primeiro show foi no JR Bar, que ficava em frente à Santa Marina, na entrada da cidade. Uma sexta-feira. Chamei os meus amigos e lembro que apareceram uns dez. Fiquei orgulhoso. A primeira parte da apresentação foi tranquila, com as músicas ensaiadas. Na segunda, o bicho pegou, porque começamos a tocar os pedidos da galera. Tinha muito samba no meio, que o César mandava bem. Foi então que iniciei a incrível técnica de olhar o braço do violão e da guitarra e correr atrás das notas com o contrabaixo. Algo que, como baixista, iria usar para o resto da minha carreira de músico. Aprende-se muita coisa tocando em boteco.
Durante os 6 meses do estágio do meu irmão tocamos em alguns outros lugares, mas principalmente no JR. Eu recebia muitos cumprimentos, sobretudo do pessoal mais velho. Engraçado que desde o começo nunca tremi antes de um show. Sempre fui muito tranquilo. Acho que era o único momento em que minha evidente timidez sumia.
Quando meu irmão terminou o estágio e se mudou para trabalhar em São Paulo, no segundo semestre, a banda esfriou, mas ainda nos reuníamos de vez em quando. Porém, o mais importante tinha ficado, a semente. Do Fruto.
No próximo capítulo: a primeira gravação e a Banda Sui Generis.
Escrevi ouvindo: Steely Dan (sempre escrevo ouvindo música e vou colocar aqui o som do momento do texto).
Por Cléber Fabbri, o Tião, jornalista e funcionário público.

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