Alguma coisa está fora de ordem

Coluna publicada no JORNAL DO PORTO dia 8-5-2020

Alguma coisa está fora de ordem

Nos últimos dias, li nas redes sociais e nos jornais sobre o medo espalhado pelas próprias redes diante da pandemia do covid-10. Não vejo esse medo. O que observo são duas dimensões de nossa cultura brasileira, as dificuldades de governos, conselhos de saúde, enfermeiros, médicos, agentes de saúde entre outros preocupados com a pandemia e as populações, de vários setores sociais nas ruas, nas praias, nas lojas.

Os problemas dos governos estaduais e municipais eram previsíveis. As instituições da saúde pública foram vilipendiadas no governo Temer e continuaram no atual. Quem não se recorda do ministro da saúde de Temer cortando recursos da saúde e ampliando o setor privado? Quem não lembra que há poucos meses do ano de 2020, milhares de trabalhadores do Núcleo de Assistência à Família, grupo multidisciplinar, composto por farmacêuticos, educadores físicos, assistentes sociais, enfermeiros e outros, foi destruído pelo atual governo? Quem se esqueceu que as farmácias de distribuição de remédios grátis para famílias mais pobres foram drasticamente reduzidas?

Nesses meses de abril e maio de 2020 os governos e municípios estão à procura de leitos de UTI, de vagas em hospitais, contratando às pressas profissionais da saúde e estão sem respiradores, sem remédios, e até mesmo sem as máscaras, luvas e roupas. Hospitais de campanha são feitos, felizmente, de modo rápido para uma doença que cresce a cada dia.

A política de saúde de terra arrasada faz, agora, vítimas, impondo ao Brasil um desonroso quarto lugar no planeta entre os piores países. Estamos no país onde a tragédia arrasta a população, sobretudo as mais pobres, as indígenas e as socialmente invisíveis. Alguém já alertou que somos um país como a banda pobre da Índia.

Ficamos com medo diante de tal destruição da saúde pública? Não. Guedes, o ministro da Economia chegou a afirmar na fatídica reforma da previdência que poderíamos trabalhar até os 70 anos de idade, e mesmo aos 80 anos. Hoje, no Rio de Janeiro, os governantes querem deixar os mais velhos morrerem primeiro, pois não há respiradores para todos. Então, eles escolhem aquele que, antes, poderia trabalhar até morrer. Morrer, sem respirador, é claro.

Ninguém teve medo das consequências das reformas. Houve festejo. O país iria crescer, mas ninguém sabia crescer para onde e para quê. Se agora, em nosso horizonte vemos covas e pouco terreno para os enterros, podemos descobrir os resultados do projeto de Guedes; o extermínio pelo menos daqueles que ganham salários sem trabalhar os velhos. São palavras do Guedes.

E as populações? Expresso população no plural, pois há diferenças econômicas profundas entre nós, brasileiros. Em que pese a imensa tristeza pelo sofrimento das mortes, das dores dos familiares, nós não estamos com medo ao que parece. Saímos sem máscaras, desprezamos os cuidados com os mais velhos, não praticamos o isolamento social, não nos cuidamos. Até agora, estou lendo textos de psicologia e antropologia para compreender essa extravagância brasileira. Esse desdém com a pandemia.

Quero pensar e ouso dizer, que passamos por uma síndrome moral de uma psique que foi patologizada no país. Um senhor que vem à minha casa cuidar das plantas, chegou sem máscaras. Ao dar-lhe uma máscara, ele me disse: - "Não precisa, isso não é tão grave assim; eu não pego gripe". Ao ver meu espanto, pegou a máscara. Será o slogan do país? "Homem que é homem não fica gripado? " Ou é a entorpecimento psíquico que nos fez aceitar a morte a qualquer custo, inclusive o custo Brasil? O mercado acima de tudo?

A morte é certa para todos. Mas precisamos morrer pela gangue de exploradores de mercado nacional? Não seria melhor se olhássemos para fora, para o ônibus que está nos levando sabe-se lá para onde e junto com os outros viajantes fizéssemos uma busca de conforto e coragem? Vamos recusar essa imitação grosseira do genocídio do Holocausto. Tenhamos medo, sim. Medo das formas mais que negam a humanidade, com h minúsculo. Não morram pelo desastre provocado por exércitos financeiros. Fiquem em casa. Usem máscaras. Pratiquem o distanciamento social. Tenham paciência. Procurem informações das pessoas da saúde.

*Professora aposentada da Universidade Estadual de Maringá. Com doutorado em Psicologia, mestrado em educação e graduação em Biologia, diletante em Literatura, uma ornitorrinco, tem a sorte de continuar a ser integrante do Grupo de pesquisa Science Studies CNPq-UEM, na mesma universidade, grupo interdisciplinar de pessoas da filosofia, pedagogia, biologia, física, psicologia entre outras áreas. Sindicalistas nos períodos necessários, teve a honra de participar com colegas de duas grandes greves, a de setembro de 2001 a março de 2002, e a de abril-maio de 2015, as duas contra privatização das universidades públicas do Paraná e a última, também contra a reforma da previdência, além, é claro, de lutar da dignidade salarial.

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