Especialista em segurança digital do Facebook pede demissão após decisão da rede social de manter vídeo de Bolsonaro, diz revista

Especialista em segurança digital do Facebook pede demissão após decisão da rede social de manter vídeo de Bolsonaro, diz revista
Reportagem da 'New Yorker' relata que funcionário não concordou com decisão do time de moderação da rede social e decidiu sair. Facebook

Richard Drew/AP Photo

Um especialista em seguran√ßa digital pediu demiss√£o do Facebook após a empresa decidir manter no ar uma live do presidente Jair Bolsonaro, segundo uma reportagem da revista "New Yorker" publicada na última segunda-feira (12).

Na transmiss√£o pelo Facebook realizada em janeiro, Bolsonaro afirmou que, "cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós".

Segundo a reportagem, o engenheiro de seguran√ßa digital David Thiel, que trabalhava na sede da rede social em Menlo Park, Califórnia, questionou internamente se o conteúdo seria removido por ter violado as regras sobre discursos "violentos ou degradantes".

Sua pergunta foi encaminhada para dois especialistas em modera√ß√£o, um em Brasília e outro em Dublin, na Irlanda, que decidiram que o vídeo n√£o feriu as diretrizes.

"Cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós", diz Bolsonaro em live

O especialista no Brasil, que n√£o teve a identidade revelada, teria respondido que Bolsonaro "é conhecido por seus discursos politicamente incorretos".

"Ele est√°, na verdade, se referindo aos indígenas se tornando mais integrados à sociedade (em vez de isolados em suas próprias tribos)", teria dito o moderador.

A revista conta que Thiel n√£o concordou e viu conflito de interesses, apontando que o moderador "trabalhou para pelo menos um político pró-Bolsonaro". O engenheiro também disse o próprio Facebook era suspeito, por incentivar Bolsonaro a utilizar a plataforma.

"É estranho para uma empresa passar de uma postura de 'por favor, senhor, use nosso produto' para 'na verdade, senhor, agora você tem problemas por usar nosso produto'", disse à revista.

Ele marcou uma reunião com o time de moderação e criou uma apresentação com 15 slides com a ajuda de alguns colegas para convencer a equipe que Bolsonaro teria violado as regras do Facebook.

Um dos slides apontava para um discurso em que Mark Zuckerberg, presidente executivo da rede social, afirmava que declara√ß√Ķes "desumanizantes" s√£o o primeiro passo para a incita√ß√£o da violência.

A equipe de moderação discordou e, segundo Thiel, interrompeu seus argumentos e questionou sua credibilidade. Em março, dois meses depois da live de Bolsonaro, Thiel se demitiu.

"O Facebook est√° hoje cada vez mais alinhado com os ricos e poderosos, permitindo que eles sigam regras diferentes", escreveu o engenheiro na plataforma interna da rede social no dia de sua saída.

Thiel contou para a revista que, pouco depois dessa publica√ß√£o, o time de modera√ß√£o entrou em contato para dizer que mudou de ideia sobre o discurso do Bolsonaro. O vídeo, no entanto, permanece no ar.

"Eu n√£o sabia se estavam tentando fazer com que eu n√£o saísse, ou que saísse em condi√ß√Ķes melhores, ou outra coisa", disse ele. "De qualquer forma, era tarde demais".

Atualmente, Thiel é diretor técnico do Observatório da Internet da Universidade de Stanford.

O G1 procurou a assessoria do Facebook Brasil, e aguarda retorno.

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