Mesmo com novas tecnologias, papel do jornal impresso é fundamental

Mesmo com novas tecnologias, papel do jornal impresso é fundamental

Para qualquer lado que se olhe, o jornal impresso encontra quem o critique. Como o mais clássico – e o mais charmoso – representante dos meios de comunicação de massa, o jornal paga até hoje o preço que pioneirismos cobram – o qual nem os discursos de pretensa independência e tampouco a prática de denúncias contra "os poderosos" conseguem quitar.

Isto porque, ao longo da História, jornais vieram-se impregnando de um vício de origem: relações de mal disfarçada dependência com pessoas ou instituições que detêm poder, seja este econômico, político ou sociocultural. Ou todos eles. Foi assim na antiga Roma, com a cinco vezes centenária Acta Diurna, que nasceu ligada ao imperador Júlio César. Foi assim no Brasil, com a Gazeta do Rio de Janeiro, o primeiro jornal feito no país, criado em 1808, por obra e graça de Dom João 6º, e convenientemente substituído, 14 anos depois, por um Diário do Governo.

Hoje, os jornais brasileiros autoproclamados independentes parecem ser, para muitos, rebeldes sem causa. Têm uma responsabilidade, os jornais? E, se têm, qual é? Quem definiu essa responsabilidade? Está afinada com o que pensa, quer e age a sociedade? É uma responsabilidade ativa, que provoca, ou passiva, que reflete? Está a serviço das causas de um governo, como na ex-União Soviética, ou de um mercado, como nos Estados Unidos?

Muitas das vezes, acreditando-se uma instituição com fim determinado e causas nobres, o jornal, no dia-a-dia, está funcionando como instituição intermediária, de cujos recursos e possibilidades se utilizam outras instituições para comunicar, e exercer, seu poder na sociedade. A constatação não seria nenhuma novidade. Durante séculos assim o fez a Coroa inglesa, para promover os interesses do Estado – o direito divino do rei. Também, a Igreja, para manter sua supremacia – o direito do rei divino. De todos os veículos de comunicação, o jornal impresso é o que exerce maior fascínio e, para alguns, maiores preocupações, embora não tenha a velocidade, instantaneidade e penetrabilidade dos meios eletrônicos – a televisão, o rádio, a internet.

O Estado e o poder econômico normalmente desenvolvem um humor ciclotímico em relação à função informativa dos meios de comunicação de massa, especialmente dos jornais. Dão a impressão de que, no fundo, querem todos os jornais ao seu lado o tempo todo. Mesmo quando discursam acerca da necessidade da crítica e da denúncia responsáveis, parecem fazê-lo a contragosto.

Não raro a História tem registrado o câmbio de visão e de procedimento de grupos que lutavam contra o poder, e tinham no jornal um grande aliado – os quais, uma vez tornando-se o poder, viam no mesmo jornal o maior inimigo. Os monarcas e os puritanos ingleses, os federalistas na Revolução Americana e os comunistas em diversos países praticaram, alternadamente, o que antes criticavam: o controle rígido dos jornais e, pior, sua transformação em instrumentos auxiliares de implementação da nova ordem política que pregavam.

Atualmente, isso parece ser "estimulado" (incredibile dictu) por uma ainda não devidamente consensada, fixada, responsabilidade que o jornal teria ante a sociedade. Ou, em palavras bem próprias, o papel do jornal.

Entretanto, seria recomendável que, antes de definir o que ele é (i. e., seu papel), o jornal se perguntasse para quem ele quer ser. Por exemplo: É verdadeiro que o jornal serve mesmo à sociedade ou somente aos que o lêem – e, naturalmente, por osmose, aos que, de alguma forma, são sensibilizados pelos conteúdos que o jornal disponibiliza?

A resposta não parece fácil. Uma abordagem pragmático-estatística (seja lá o que isso queira dizer!) poderia afirmar que o jornal exerce seu papel (aqui ainda não definido) somente junto aos seus leitores. Argumentaria que o jornal não serve à totalidade da sociedade onde está presente, pois esta inclui os que não sabem ler, os que sabem e não se dão a esse "luxo" ou, ainda, por razões econômicas ou geográficas, não têm acesso às fontes de leitura, entre elas o jornal.

Uma outra abordagem defenderia que, para que a sociedade seja servida pelo jornal, não é obrigatório – embora seja desejável – que todas as pessoas que a constituem o leiam. E exemplificaria que a campanha para instalação de uma nova indústria, ou para a aprovação de uma determinada lei, pode ser reforçada pelo jornal, daí podendo resultar ganhos sociais não previstos na tal abordagem pragmático-estatística.

Isto posto, sem querer simplificar nem esgotar o assunto, poder-se-ia resumir que, acerca de quem é o público-alvo do jornal, ele é, efetivamente, a sociedade: o jornal pensaria na coletividade dos indivíduos ainda que agindo na individualidade dos leitores. Ou, na linguagem da contemporaneidade: pensar globalmente, atuar localmente, ou localizadamente.

Estabelecido que o jornal serve à sociedade, resta definir qual o papel do jornal junto a ela. O jornal tem um interesse próprio, algo que só a ele seja peculiar? Ou é ele uma entidade mediadora das demais forças sociais? Ou, dependente, é tão-só um office-boy de instituições política, econômica e culturalmente mais poderosas que outras? Ou, ainda, historiador do efêmero, comporta-se como secretário ad hoc do tempo, a lavrar as atas do quotidiano? É um informante, um intérprete, um persuasor? É agente ou usuário? É sopro que vivifica ou soporífero que entorpece?

Jornais e jornalistas têm pregado que é sua missão a defesa da liberdade e a busca da verdade. Estariam tentando dizer que o relato dos casos do dia-a-dia esconde/revela uma causa histórica, transcendental, sagrada, sempiterna?

Talvez o papel do jornal não esteja ainda sendo corretamente interpretado no teatro social. Talvez falte ao jornal dar mais voz a mais personagens. É necessário cidadanizar o jornal. Provocar mais o cidadão comum. Prestar-lhe mais serviços. O veículo jornal deve percorrer, ou criar, novos caminhos: em vez da mão única que transporta as decisões do poder até o povo, optar pela via preferencial que leva a voz do povo até os ouvidos do poder. Caso contrário, a sociedade corre o risco de ser governada por entes virtuais, não-presenciais, seres cujos contornos só são conhecidos pelo que é dado para consumo nos meios de comunicação de massa. O jornal serve tanto para fazer poder quanto para poder fazer. Em um aspecto, como agente do poder, amarra o cidadão e escurece-lhe as vistas. No outro, com o poder de agente, desfaz-lhe os nós e faz-se-lhe a luz.

O papel do jornal assume importância crescente. A ausência de jornais é uma perda. E, embora outros meios atualmente possam suprir eventuais suspensões de circulação, os leitores continuariam a esperar que o jornal pudesse trazer, na manhã de hoje, organizadinhos em colunas, os fatos e opiniões que na noite de ontem estiveram circulando meio caoticamente no éter das transmissões eletrônicas.

Se o papel do jornal na sociedade ainda não parece ter sido definido substantivamente, não há dúvida de que já o foi no aspecto adjetivo: qualquer que seja o papel, repita-se, ele é importante. Historicamente, apesar de disfunções havidas e ainda existentes, esse papel foi essencial. Pois se a construção da sociedade, como a queremos hoje e como a pretendemos amanhã, tem repouso nos pilares da democracia, esta, por sua vez, se estruturou em colunas igualmente resistentes: as colunas do jornal.


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