Conheça as memórias de Toninho Malaman, figurinha carimbada da Rua Cel. João Procópio

Personagem conhecido dos ferreirense, Toninho Malaman compartilha no Porto de Memórias desta semana as lembranças de infância, da banda, do carnaval e os causos da famosa "mureta"

Foto: Felipe Lamellas/Porto de Memórias

Foto: Felipe Lamellas/Porto de Memórias

Se essa rua, se essa rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes
Para o meu, para o meu amor passar

A canção acima é uma das cantigas populares mais queridas de nosso país e está no imaginário infantil de muitas gerações. Como nós sabemos, no entanto, a rua não é propriedade de ninguém ou melhor, é de todos nós. Isso porque é um espaço fértil para a produção e compartilhamento de vivências, de causos, de memórias.

Cada casa, cada prédio, cada poste, não são suficientes para montar uma rua, é preciso também de histórias, de lendas, de boatos, de barulho. A rua não tem apenas olho, tem ouvido e vida também. E o Toninho Malaman, conhece muito bem a vida da Rua Coronel João Procópio.

Foto: Felipe Lamellas/Porto de Memórias

Antonio Aparecido Malaman nasceu em agosto de 1933 no número 335 da rua Cel. João Procópio, rua onde cresceu e se criou e rua onde mora há quase 90 anos. Não foi só "a João Procópio" que viu o Toninho crescer, ele também acompanhou de perto a ascensão da rua que refletia o desenvolvimento urbano de Porto Ferreira.

Ele conta que na sua época de infância a cidade era bem pequena e as ruas do centro se contavam na palma da mão. "Na Matias Cardoso com a Francisco Prado, a cidade acabava ali". Se recorda também que na proximidade do Cemitério velho havia uma porteira que dava de entrada com o Sítio do João Turco e que, na antiga Avenida 24 de Outubro, perto da venda do Toninho Loureiro, ainda havia uma parada de carros de boi.

Aluno no grupo Escolar Sud Mennucci, Toninho entrou no exército em 1953 e permaneceu por um ano até 1954. Deste período ele se recorda que teve facilidade nos serviços de cavalaria, uma vez que, já estava acostumado a montar a cavalo. Quando voltou, ajudou durante um período também no Bar do Clube, que seu pai havia comprado do Oswaldo Arantes.

Depois disso, trabalhou por 18 anos na Cerâmica do Síryo Ignatios, fazendo isoladores. Destaca a união dos seus colegas de trabalho bem como a humildade e companheirismo do seu patrão. Se recorda de que em um dos muitos sábados de trabalho, após o fim do expediente, ele e seus colegas estavam bebendo na cerâmica até que o Síryo chegou para o temor de alguns. O desfecho ele conta com satisfação:

Não é que ele entrou no meio de nós e mandou vim mais cerveja! Pra ver que tipo de patrão era.

Morando a algumas casas ao lado da Corporação Musical Santa Cecília, o Toninho literalmente teve o prazer de ver a banda passar inúmeras vezes da janela de casa. Ele inclusive viu o prédio da banda ser construído, na época, pelo Seu Osório Thomaz junto a população local

Tinha uma banda aqui, que puta vida. Todo domingo a banda ia no jardim. Quando tinha futebol, a banda subia essa rua aqui para incentivar o povo.

Sobre o carnaval a mesma coisa: a casa virava camarote para acompanhar os foliões. Segundo Toninho, foi o irmão dele, o Nilson Malaman, um dos responsáveis por resgatar na cidade a tradição trazida pelos ferroviários. "A turma dos ferroviários que fizeram o boi aqui primeiro. Aí a tradição estava meio apagada e meu irmão Nilson que começou de novo".


Foto: Felipe Lamellas/Porto de Memórias

Nós tínhamos na chácara lá o bambuzal, a gente cortava lá, fazia a armação, o Pipo Pirondi tinha a "Fiação" e dava o saco pra gente fazer a cobertura do boi e depois jogava aquela tinha preta. Muitas vezes o boi saiu de dentro do quintal da nossa casa aqui.

Um dos fatos memoráveis da trajetória do Toninho, e certamente o que o consagra como personagem folclórico de nossa cidade, é uma tradição iniciada por ele de se sentar na mureta de um prédio, onde hoje funciona uma farmácia, na esquina da Rua Francisco Prado, com a Cel. João Procópio. "Eu acho que quem foi o chamarisco fui eu".

Ele conta que depois de um tempo, muitos amigos, igualmente idosos e aposentados, começaram a se juntar a ele na mureta para colocar o papo e as histórias em dia. "Aí começou a vim o Fiochi, o Arnoni, o Argenor Zuzzi, os primeiros né, fazia uma fila lá e aí começava o bate papo, todo dia a gente sentava ali".

Ele compartilha uma brincadeira com o amigo Valdemir Mafra sobre a história da mureta. Isso porque, naturalmente, muitos dos idosos que se sentaram lá acabaram falecendo. "Aí o Mafrinha, via alguém sentado comigo lá e falava "óia, cuidado, não fica aí hein!", brincava ele".

Eu me considero um dos mais antigos ferreirenses de cidade aqui né, vi Porto Ferreira crescer e meu desejo é que cresça mais, progrida mais, eu não trocaria por cidade nenhuma Porto Ferreira.

O projeto Porto de Memórias foi idealizado pelo ferreirense e jornalista Felipe Lamellas e se propõe a contar histórias de vida de personalidades marcantes para a cidade, conhecidas ou não. O objetivo principal é resgatar e preservar a memória da comunidade local, contando histórias, causos e lembranças de membros da sociedade, que se confundem com a própria história da cidade.


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