Seca na terra, cheia no rio

Coluna publicada no JORNAL DO PORTO dia 11-6-2021

Seca na terra, cheia no rio

Ouvimos nas mídias oficiais que, historicamente, o Rio Negro subiu cerca de seis metros acima do nível em junho de 2021 quando em maio/junho. O inverno amazonense, sobe cerca de três metros acima do nível. É o dobro de água que provoca na cidade de Manaus e arredores, um caos generalizado.

Mas o que eleva o nível de um rio, pergunta a professora Maria Eugênia Ferreira da Costa, do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Maringá. Para ela, temos duas hipóteses, 1) muita chuva e 2) menos infiltração de água no solo, menos água evapotranspiração pelas árvores e, portanto, mais água indo para os rios. Não choveu na região, ao contrário, a região sofreu seca por causas de imensas queimadas e mortes de animais. A hipótese primeira não é, assim, plausível.

A segunda hipótese "mais água escoando pelos rios, menos água no solo e menos evapotranspiração das árvores" é plausível. Perdemos florestas e seus habitantes. É provável que a água tenha subido no rio principal, Solimões – Amazonas, mudando o nível da base do afluente Rio Negro, que refluiu e inundou seu baixo vale.

Seca na Terra, desmatamento, mais queimadas, menos água no solo e mais no leito do rio, com inundações mais graves, diz nossa professora de Geografia.

Antes de 2021, tivemos as secas mais profundas dos rios em 1902, 1963 em 2005 a 2010. Em 19-2 quando construíram o porto de Manaus. Em 2005 a 2010 foi a terceira maior seca sendo que, em 2009, tivemos uma cheia. Esses dados estão no artigo de Carlos Afonso Nobre, engenheiro, doutor em Meteorologia, integrante o Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Esses marcos mostram que em 108 anos de registros dos rios, as piores secas ocorreram com o desmatamento da floresta que abriga 15% da biodiversidade do planeta, com a concentração de CO2, com as águas dos Oceanos Pacífico e Atlântico aquecidas pelas mudanças climáticas.

Em 2010, 60 mil pessoas foram afetadas. Agora com a cheia dos rios, centenas de cidades, seus habitantes e seus animais são afetadas. Afetadas pelas queimadas, venda da floresta, e pelo solo seco.

A compreensão científica das flutuações dos rios na Amazônia é entender uma floresta tropical úmida que somente vive se a estação seca for curta, pois deve existir água o ano todo. Queimadas frequentes obstaculizam a vida da floresta porque consomem a água do solo e impedem a renovação das árvores depois das secas. Mas aí entram também o aquecimento global diminuindo as chuvas em torno de 15% e aumentando a temperatura em quatro graus. Esses dados de Nobre levam à hipótese de savanização da Amazônia diferente do cerrado e do sul da Amazônia por causa da redução da biodiversidade.

É como puxar um fio e este fio desfazer muitas redes de conexão entre chuva, árvores, insetos, mamíferos, peixes e toda biodiversidade local.

Teremos uma savana onde nem gado será criado. Nem soja nascerá. Nem nada.

P. S. Enquanto escrevo aqui, a CPI da pandemia colhe o depoimento do ministro da saúde. Diz o ministro que ele é médico, não é político. Como faz falta aulas de Filosofia. Política vem de POLIS, cidade. Se nasceu em uma cidade, é um político, aquele que trata de sua individualidade com vínculo ao coletivo. Não há dissolução possível entre essas duas dimensões. Médico que trata um paciente, trata uma cidade, sobretudo se for numa pandemia.

Soube, hoje, também: na reunião no gabinete da sombra, nome dado pelo biólogo, professor da USP, Paulo Zangotto, estava um representante do Conselho Federal de Medicina. Custo a acreditar que médicos desceram ao Hades, o portal dos infernos da mitologia. Mantenho a alegria de viver para não morrer neste Brasil mesquinho. Como nos rios, a seca mata. Zangotto pediu afastamento para ir ao Canadá por dois anos para efetivar sua sabática. Pode ir, mas jamais será o mesmo depois de dar o nome perfeito àquele grupo da cloroquina: SOMBRA.

*MARTA BELLINI

*Professora aposentada da Universidade Estadual de Maringá. Com doutorado em Psicologia, mestrado em educação e graduação em Biologia, diletante em Literatura, uma ornitorrinco, tem a sorte de continuar a ser integrante do Grupo de pesquisa Science Studies CNPq-UEM, na mesma universidade, grupo interdisciplinar de pessoas da filosofia, pedagogia, biologia, física, psicologia entre outras áreas. Sindicalistas nos períodos necessários, teve a honra de participar com colegas de duas grandes greves, a de setembro de 2001 a março de 2002, e a de abril-maio de 2015, as duas contra privatização das universidades públicas do Paraná e a última, também contra a reforma da previdência, além, é claro, de lutar da dignidade salarial.