O luto que habita em nós, brasileiros

O luto que habita em nós, brasileiros

O homem é um animal que ri; o homem é um animal que fabrica utensílios, o homem é um animal que mata, sem piedade, outros animais, o homem é um animal que enterra seus mortos. Ao longo do tempo várias foram as definições de homem. Todas têm uma verdade. Eu, particularmente, gosto da última, o homem é um animal que enterra seus mortos. Daí a construção do luto. Ao enterrar homenageamos o morto, sua vida, seus feitos, sua participação no coletivo de outros homens.

O luto ensina. Não se ensina na escola. Aprendemos na vida, nas experiências do dia a dia, na continuidade e na ruptura das amizades e dos laços afetivos. Luto significa o trabalho interno de cada de nós diante de uma perda. Cada um de nós elabora o luto de forma diferente porque a pessoa morta ocupou um lugar em nossa vida.

É parte da condição humana morrer. Mas antes disso, é parte também da condição humana viver. Um dia todos vamos morrer, é apenas a constatação da espécie biológica. O melhor disto é tornar-se humano. Parece redundante, mas é isso mesmo. Tornamo-nos humanos pelos laços tecidos com outros humanos. Laços que nos mudam a cada segundo de nossa vivência. Um investimento na vida é uma viagem em dois sentidos, por dentro e por fora. Dentro porque nos transformamos em outras pessoas conforme o tempo passa; por fora, porque mudamos nosso modo de conviver com as outras pessoas. Inclusive, ao tomar conta de nossa morte, também mudamos.

A melhor coisa que temos é nossa vida. Eu não sou mais aquela adolescente de Porto Ferreira que esperava seu namorado no muro da casa dos pais. É uma imagem fofa, mas eu mudei. Também não sou mais aquela professora que tinha receio da diretora da escola. Ainda ontem comentei com minha filha, que me ajuda nas contas da casa, que eu não comprei nada além de comida. E o que sobrou colaborei com uma colega que teve AVC e com a casa de um pastor que atende pessoas com HIV. Não porque quero ir "para o céu", mas porque a humanidade destas pessoas é a mesma da minha. Porque este Brasil que estamos vivendo parece que perdeu o melhor da vida, a solidariedade, a mão do afeto.

Vejo o Brasil sob uma nuvem espessa, escura, sem novidade a não ser a morte. Vejo também as redes sociais com campanhas para presidente em 2022, vejo um congresso tentando se blindar protegendo –se como adolescentes travessos e cruéis. Vejo festas no último andar do Hotel E. no centro da cidade de Maringá, festas no bairro de minha amiga A. com violino e carrões.

Vejo também pela TV uma igreja em Curitiba com 2000 pessoas, todas com seus vestidinhos rodados e cabelos com laquê. Todos correndo da morte ou evitando pensar a morte levando a morte nas mãos. Curioso Brasil.

Essas festas e festejos – em geral da classe média e de religiosos – mostram como temos medo da morte, embora o presidente diga que todos vamos morrer. Um cruel giro para escapar da única certeza humana. Paradoxal.

O presidente propõe uma ideia maluca de autodestruição e alguns grupos da população responde ao seu comando correndo a se divertir em igrejas e festinhas. Isso não lhes parece autoflagelação? Desespero? Divertir-se e depois sucumbir à morte levando outras pessoas juntas? Parece-me uma burrice sem tamanho.

A vida é uma opção, diz Léo Buscaglia, e podemos escolher a diversão todo dia. Susan Anthony, presidente das Feministas nos EUA, até os 80 anos andava tocando tambor nas ruas para votar. Aos 52 anos foi presa porque entrou numa cabine para votar. O voto era apenas para homens e ela disse ao guarda: - "Quero votar. O que é isso, mulher não vota? E aos 52 anos teve uma outra experiência: foi presa! Isso é viver! Viver com ação.

Aos 59 anos, eu e meus colegas professores ficamos sob bombas no dia 25 de abril de 2015 na Praça da Assembleia Legislativa do Paraná contra o roubo de nossa previdência. Minha filha viu pela TV e ficou louca de medo. Mas ela vai poder dizer que sua mãe se divertiu muito. Vai poder dizer que, nessa pandemia, estamos lutando para continuar vivos. Com luto. Perdemos muitas pessoas. Ontem faleceu um aluno da música, um tenor. Só quem viveu perto dele, sabe dos esforços para se formar como brilhante tenor. Morreu também minha fisioterapeuta de Piracicaba, a L. Ela me fez andar novamente depois de muita medicação para uma doença autoimune. Faleceu também meu amigo da universidade, seo Afonso. Um digno senhor de 62 anos.

Morrem muitas pessoas todos os dias. Ontem, terça-feira, foram 1726 pessoas. Não adianta dizer que todos morremos. Essas pessoas morrem por falta de leito, por falta de remédios e por falta de solidariedade. Por falta de política sanitária. No lugar de festas poderíamos colaborar com campanhas, com cuidados de si e dos outros.

No lugar das festas poderíamos mostrar nossos sentimentos aos mortos e às famílias dos mortos neste país sem rumo. Enterrá-los com honra por terem participado da vida neste triste país.

*Marta Bellini

*Professora aposentada da Universidade Estadual de Maringá. Com doutorado em Psicologia, mestrado em educação e graduação em Biologia, diletante em Literatura, uma ornitorrinco, tem a sorte de continuar a ser integrante do Grupo de pesquisa Science Studies CNPq-UEM, na mesma universidade, grupo interdisciplinar de pessoas da filosofia, pedagogia, biologia, física, psicologia entre outras áreas. Sindicalistas nos períodos necessários, teve a honra de participar com colegas de duas grandes greves, a de setembro de 2001 a março de 2002, e a de abril-maio de 2015, as duas contra privatização das universidades públicas do Paraná e a última, também contra a reforma da previdência, além, é claro, de lutar da dignidade salarial.

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