O mistério do grupo hacker 'Robin Hood' que doa dinheiro roubado para caridade

O mistério do grupo hacker 'Robin Hood' que doa dinheiro roubado para caridade
Especialistas e instituiƧƵes de caridade ficam intrigados com os hackers que comeƧaram a doar dinheiro roubado. Um grupo de hackers estĆ” doando dinheiro roubado para instituiƧƵes de caridade, o que vem intrigando especialistas em crimes cibernéticos.

Os hackers do grupo Darkside afirmam ter extorquido milhƵes de dólares de empresas, mas dizem que agora querem "tornar o mundo um lugar melhor".

Em um post na dark web ("camada" da internet que só pode ser acessada com softwares específicos, e onde costuma haver atividade criminal), a gangue divulgou recibos de US$ 10 mil (R$ 56 mil) em doaƧƵes de Bitcoin para duas instituiƧƵes de caridade.

Uma delas, a Children International, diz que nĆ£o ficarĆ” com o dinheiro.

A mudanƧa estĆ” sendo vista como uma evoluĆ§Ć£o estranha e preocupante, tanto moral quanto legalmente.

Na postagem do blog no dia 13 de outubro, os hackers afirmam que só atacam grandes empresas com um tipo de hack conhecido como ransomware, em que os sistemas de TI das organizaƧƵes sĆ£o mantidos "reféns" até que o resgate seja pago.

Os hackers postaram seu recibo de impostos para a doaĆ§Ć£o de US$ 10 mil

ReproduĆ§Ć£o via BBC

"Achamos que é justo que parte do dinheiro que as empresas pagaram vĆ” para a caridade. Por pior que você ache que nosso trabalho é, temos o prazer de saber que ajudamos a mudar a vida de alguém. Hoje enviamos as primeiras doaƧƵes", anunciaram os hackers.

Os cibercriminosos postaram a doaĆ§Ć£o junto com os recibos de impostos que receberam em troca pelo 0,88 Bitcoin que enviaram para duas instituiƧƵes de caridade, The Water Project e Children International.

A Children International ajuda crianƧas, famílias e comunidades na Índia, Filipinas, Colômbia, Equador, ZĆ¢mbia, República Dominicana, Guatemala, Honduras, México e Estados Unidos. Um porta-voz da Children International disse à BBC:

"Se a doaĆ§Ć£o estiver ligada a um hacker, nĆ£o temos intenĆ§Ć£o de ficar com ela".

O The Water Project, que trabalha para melhorar o acesso à Ć”gua potĆ”vel na Ɓfrica Subsaariana, nĆ£o respondeu aos pedidos de entrevista.

Outro recibo foi postado no blog da dark web mostrando uma doaĆ§Ć£o de US$ 10 mil

ReproduĆ§Ć£o via BBC

Vigaristas sem consciência

Brett Callow, analista de ameaƧas da empresa de seguranƧa cibernética Emsisoft, disse: "O que os criminosos esperam alcanƧar fazendo essas doaƧƵes nĆ£o estĆ” nada claro. Talvez ajude a amenizar a culpa deles? Ou talvez por razƵes egoístas eles querem ser vistos como Robin Hood, em vez de vigaristas sem consciência".

"Quaisquer que sejam suas motivaƧƵes, certamente é algo muito incomum e é, até onde eu sei, a primeira vez que um grupo de ransomware doou uma parte de seus lucros para instituiƧƵes de caridade."

O grupo de hackers Darkside é relativamente novo, mas uma anĆ”lise do mercado de criptomoedas confirma que eles estĆ£o extorquindo fundos das vítimas.

Também hĆ” evidências de que eles podem ter ligaƧƵes com outros grupos cibercriminosos responsĆ”veis por ataques de alto perfil a empresas, incluindo a Travelex, que foi atingida por um ransomware em janeiro.

A forma como os hackers pagaram as instituiƧƵes de caridade também é um possível motivo de preocupaĆ§Ć£o para as autoridades.

Os cibercriminosos utilizaram um serviƧo com sede nos Estados Unidos chamado The Giving Block, que é usado por diferentes organizaƧƵes sem fins lucrativos de todo o mundo, incluindo Save The Children, Rainforest Foundation e She's the First.

O The Giving Block se descreve online como "a única soluĆ§Ć£o específica sem fins lucrativos para aceitar doaƧƵes em criptomoeda".

A empresa foi criada em 2018 para oferecer aos "milionƔrios" das criptomoedas a capacidade de aproveitar o "enorme incentivo fiscal para doar Bitcoin e outras criptomoedas diretamente para organizaƧƵes sem fins lucrativos".

O The Giving Block disse à BBC que nĆ£o sabia que essas doaƧƵes eram feitas por cibercriminosos. A entidade disse: "Ainda estamos trabalhando para determinar se esses fundos foram realmente roubados".

"Se descobrirmos que essas doaƧƵes foram feitas com fundos roubados, é claro que comeƧaremos o trabalho de devolvê-las ao legítimo proprietĆ”rio."

A empresa nĆ£o esclareceu se isso significa devolver o dinheiro roubado aos criminosos ou tentar descobrir quais foram as vítimas dos roubos.

O The Giving Block, que também defende as criptomoedas, acrescentou: "O fato de eles usarem criptografia tornarĆ” mais fĆ”cil, nĆ£o mais difícil, capturĆ”-los".

No entanto, The Giving Block nĆ£o deu detalhes sobre quais informaƧƵes eles coletam sobre seus doadores. A maioria dos serviƧos que compram e vendem moedas digitais, como Bitcoin, exigem que os usuĆ”rios verifiquem sua identidade, mas nĆ£o estĆ” claro se isso é feito no site.

Como um experimento, a BBC tentou doar anonimamente por meio do sistema online do The Giving Block e nĆ£o recebeu nenhuma pergunta de verificaĆ§Ć£o de identidade.

Especialistas dizem que o caso destaca a complexidade e os perigos das doaƧƵes anônimas.

O tweet (agora excluído) celebrava a doaĆ§Ć£o dos hackers

ReproduĆ§Ć£o via BBC

Perigo de lavagem de dinheiro

O pesquisador de criptomoedas Philip Gradwell, da Chainanalysis, disse: "Se você entra em uma instituiĆ§Ć£o de caridade com uma mĆ”scara anônima e doa 10 mil libras em dinheiro e depois pede um recibo, provavelmente algumas perguntas precisam ser feitas".

"É correto dizer que os pesquisadores e o setor de seguranƧa tentam rastrear fundos de criptomoedas conforme eles sĆ£o movidos de carteira em carteira. Mas descobrir quem realmente possui cada carteira é muito mais complicado."

"Ao permitir doaƧƵes anônimas de fontes potencialmente ilícitas, aumenta o perigo de lavagem de dinheiro."

"Todas as empresas de criptografia precisam de uma gama completa de medidas de combate à lavagem de dinheiro, incluindo um programa Know Your Client (KYC, algo como "ConheƧa Seu Cliente", em traduĆ§Ć£o livre) de verificaƧƵes bĆ”sicas de antecedentes, para que possam entender quem estĆ” por trĆ”s das transaƧƵes que seus negócios facilitam."

A BBC conversou com outras instituiƧƵes de caridade que aceitam doaƧƵes por meio do The Giving Project.

A Save the Children disse à BBC que "nunca aceitaria intencionalmente dinheiro obtido por meio do crime".

A She's the First, uma instituiĆ§Ć£o de caridade para a educaĆ§Ć£o de meninas em todo o mundo, disse que nĆ£o se sentiria confortĆ”vel aceitar dinheiro de fontes anônimas, possivelmente criminosas, e disse:

"É uma pena que maus atores explorem a oportunidade de doar criptomoeda para ganho pessoal, e esperamos que até mesmo doadores anônimos compartilhem os valores de nossa comunidade".

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