Tristes trópicos

Edição impressa do dia 20-11-2020

Sentei-me para escrever esta coluna; muitas ideias, as eleições de domingo passado, as recentes paisagens das cidades da pandemia e dos pandemônios políticos e a infantil fala do presidente no Brics. Da janela de uma quarta-feira com uma deliciosa chuva nesse tórrido local abaixo do Equador, ouvi o canto das maritacas e dos sabiás, esses pássaros que ainda não desacorçoaram de viver sem matas e florestas. De repente, me lembrei de Lévi Strauss, Tristes trópicos. Meu coração pulou de alegria na rigidez de meu cérebro cinza.

Lévi Strauss, antropólogo, viajou pel Brasil entre 1935 a 1939 e esteve entre os kadiwéus, bororos e nhambikara e, em 1955, publicou suas vivências brasileiras no livro Triste Trópicos. Obra sublime. Morou em São Paulo e conviveu com os indígenas da região. A grande pergunta de Strauss foi, nessa época, "Somos ainda humanos para compreender os povos indígenas? " Isso há 80 anos.

Minha bisavó foi uma guarani caçada em Pirassununga. Caçada como um animal. Foi caçada na região de Pirassununga, São Paulo. Casou-se com o bisavô português. Descobri esse parentesco entrevistando meu tio Ormindo, irmão de minha mãe, em 1978. Mais velho dos filhos sabia das origens da família, essas escondidas. Todos temos um indígena na família ou temos raízes negras, genealogias ocultas nas caixinhas das famílias brasileiras.

Em 1935, Strauss passou pelo norte do Paraná, na poeira vermelha da região. Profético, falou das boas colheitas e da devastação das grandes árvores. O inexorável "progresso" capitalista que, de tão grande, nos deixou apequenados.

Hoje, século XXI, vemos a profecia realizada. Strauss ficaria admirado ao ver a grande Amazônia quase extinta. Que animais foram e são queimados vivos. Que muitos das comunidades indígenas se suicidam. Que o próprio governo, via Ibama, liberou geral o envio de madeira para a Europa e ao EUA. Que nas cidades – quase todas – crescem igrejas de todas as seitas enquanto diminuem prédios escolares. Diminuem as bibliotecas. Pois não foi Temer e seu ministro Mendonça (que perdeu as eleições para prefeito) que assinaram uma PEC proibindo a construção de escolas públicas durante mais de 20 anos?

Em nome de um deus, estamos cheios de deuses, mas perdemos a humanidade. Comunidades indígenas continuam saqueadas e incompreendidas. Escrevendo ontem um artigo sobre o último documento aprovado para a educação brasileira vi o golpe perfeito para a aniquilação do ensino público. Sem poder construir escolas e sem poder fazer concursos públicos, os dirigentes jogam a educação aos braços privados. Está tudo na famigerada Base Nacional Comum Curricular. Voltaremos todos, as novas gerações para as existências tripudiadas como já são as indígenas, as quilombolas e outras.

Professores sem concurso farão provas a cada dois anos para ver se são aptos a continuar na carreira. Aprovado em 2017, a Base Nacional foi sancionada pelo atual presidente. No paraná e outros estados, a educação é militarizada. Os professores – depois de mais de 10 anos de estudos e especialização – darão lugar a militares aposentados ou reformados para ganhar mais soldo que tiram da educação. É um escândalo ao qual assistimos quietos ou perplexos. Ou apoiamos, como é o caso de muitos docentes aqui no Paraná. Ingenuidade política assinar a própria demissão. Como disse o genial escritor Graham Greene, "A ingenuidade é uma forma de insanidade".

Tristes trópicos.

*Professora aposentada da Universidade Estadual de Maringá. Com doutorado em Psicologia, mestrado em educação e graduação em Biologia, diletante em Literatura, uma ornitorrinco, tem a sorte de continuar a ser integrante do Grupo de pesquisa Science Studies CNPq-UEM, na mesma universidade, grupo interdisciplinar de pessoas da filosofia, pedagogia, biologia, física, psicologia entre outras áreas. Sindicalistas nos períodos necessários, teve a honra de participar com colegas de duas grandes greves, a de setembro de 2001 a março de 2002, e a de abril-maio de 2015, as duas contra privatização das universidades públicas do Paraná e a última, também contra a reforma da previdência, além, é claro, de lutar da dignidade salarial.