O Algodão na Fazenda Rio Corrente

Por André Bellini em 03/02/2020 às 15:52:37

O Algodão no Brasil

Entre os séculos XVI e XVII, as primeiras plantações do algodão arbóreo foram introduzidas no "Nordeste Açucareiro", como matéria-prima de fiações e tecelagens para a produção de um "pano mais grosseiro" para a vestimenta dos escravos. Com a introdução de novas variedades da planta, em meados do século XVIII até 1830, grandes unidades produtivas escravistas cultivaram a cotonicultura no Maranhão. A competição direta com o mercado norte-americano e a elevação do preço dos escravos causaram o declínio da cotonicultura escravista.

A Guerra de Secessão dos EUA (1861-65) produziu a oportunidade para o aumento de investimentos ingleses no território brasileiro, criando um segundo ciclo produtivo da cotonicultura ao inseri-la no Estado de São Paulo. Embora os norte-americanos tenham novamente recuperado o mercado internacional após o fim da guerra, a demanda interna gerada pelo café no Sudeste sustentou a produção algodoeira e, no final do século XIX, a indústria têxtil respondia por 60% do capital aplicado no setor industrial do Brasil.

O Algodão em São Paulo

Segundo Barjas Negri, o número de estabelecimentos da Indústria de Transformação (bens de consumo não duráveis, bens intermediários e bens de capital e de consumo duráveis) da 1ª República em São Paulo foi: 1907 – 327 unidades, 1919 – 4.112 unidades e 1928 com 9.603 empresas. O censo de 1919 demonstrou que a indústria têxtil, com 217 estabelecimentos, empregava 33.665 operários (42% do total). Em 1928, dos 9.603 estabelecimentos 508 pertenciam ao setor têxtil, empregando 67.673 funcionários (42,62% do total).

Portanto, a indústria têxtil no Estado de São Paulo se constituiu entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, com uma quantidade significativa de empresas, porém, com quase a metade do pessoal ocupado da Indústria de Transformação. Neste período, 65% dos estabelecimentos industriais se concentravam na Grande São Paulo e 35% no interior do Estado. Entretanto, metade do algodão produzido era de baixa qualidade, com fibras curtas, podendo ser usado apenas para a produção de tecidos rústicos.

A década de 30 apresentou uma ruptura com o padrão produtivo anterior. Com a crise no setor cafeeiro, ocorreu um retalhamento das grandes propriedades agrícolas em pequenas unidades territoriais, as quais permitiram ao pequeno proprietário, com financiamentos bancários, investir em outras culturas, sendo o algodão a mais importante para os novos proprietários. No ano de 1938-39 a área cultivada de algodão no Estado de São Paulo foi de 372. 878 alqueires

Iniciaram-se trabalhos de pesquisas governamentais, seleção de sementes e empregos de fertilizantes, melhorando a qualidade da produção. Entre 1940 e 1965 o algodão herbáceo do Brasil Meridional (centro-sul) superou definitivamente, em quantidade, a produtividade do algodão arbóreo do Brasil Setentrional (Norte e Nordeste).

O algodão em Porto Ferreira

No ano de 1934, em Porto Ferreira, Agostinho Prada e Perondi Igínio fundaram a Cia. Algodoeira Perondi Ltda., localizada na atual Avenida Engenheiro Nicolau de Vergueiro Forjaz (antiga Avenida 24 de Outubro). O prédio, embora utilizado para outras finalidades, ainda mantém as características originais externas peculiares da indústria têxtil do período (parede de tijolos à vista cobertura de telhas francesas). No local, era realizado o beneficiamento do algodão (retirada das fibras e do óleo das sementes).

Em 1947, Perondi fundou a Fiação Amélia, empresa que transformava as fibras do algodão em rolos de fios. Como item de curiosidade, em 1937 havia 780 estabelecimentos têxteis no Estado de São Paulo, empregando 87.401 operários (34,5% do total).

Desta forma, é possível deduzir que havia uma produção local, em Porto Ferreira, e regional de algodão, utilizado como matéria-prima para esta indústria[1].

O algodão na Fazenda Rio Corrente em Porto Ferreira

O milagre do algodão na Fazenda Rio Corrente (retratado em artigo na semana passada neste jornal) foi estampado na revista "O Cruzeiro", edição 31, de 19 de maio de 1951, com o título "O algodão ressurge em São Paulo". No artigo, foi destacado o rápido esgotamento do solo paulista pela cultura do algodão que, de 300 a 400 arrobas por alqueire de algodão de pluma em rama, passou a produzir apenas 80 arrobas. Naquele ano, 1951, a fazenda Rio Corrente, do "Rei do algodão ferreirense", Assis Chateaubriand, apresentou 450 arrobas por alqueire e o sucesso se encontrava nas doses científicas de hiperfosfato marroquino, da Companhia Brasileira de Adubos.

Obviamente, diante do sucesso produtivo agrícola, o vaidoso "Cidadão Kane brasileiro" mobilizou uma comitiva para visitar a sua fazenda, com as mais ilustres autoridades do setor agrícola (cerca de 30 nomes), dentre os quais se destacavam João Cleofas (Ministro da Agriucltura), Oliveira Costa (Secretário da Agricultura Paulista), Geremia Lunardelli (rei do café), Basileu da Costa Gomes (Diretor da Cia. Brasileira de Adubos), Hélio Pecci (Diretor da Fiat), Moreira Sales, José Maria Whitaker, Brigadeiro Armando Araribóia e inúmeros agrônomos.

Ao serem analisados os dados históricos da cotonicultura no Estado de São Paulo, torna-se perceptível que a Fazenda Rio Corrente estava inserida neste processo ao cultivar o algodão herbáceo em conjunto com a adubação do solo, implementos agrícolas e o controle de pragas com a aplicação de inseticidas, gerando alta produtividade por alqueire, superando a média dos Estados Unidos da América que, nos séculos XVIII, XIX e início do século XX foram os principais responsáveis pela crise no setor da cotonicultura brasileira.

[1] Estes dados podem ser mensurados em estudos aprofundados ao consultar o livro de impostos sobre a produção agrícola de Porto Ferreira no período.


Fonte: Renan Arnoni (historiador)

Cavaliani