Em diversas oportunidades falamos aqui sobre as dificuldades de manter viva a imprensa escrita de qualidade e independente, principalmente numa cidade do interior e, de alguns anos para cá, enfrentando a concorrência cada vez mais presente das novas tecnologias. Este trabalho de praticar o jornalismo sério se torna ainda mais difícil quando não se tem, desculpem a expressão, o “rabo preso” com autoridades ou grupos políticos e/ou econômicos, mas apenas com aquela que é nossa razão de existir: a coletividade ferreirense.

Com 40 anos de existência, o Jornal do Porto é símbolo da imprensa escrita não só em Porto Ferreira, mas em toda a região. E esta independência vira e mexe desagrada àqueles que esperam do jornal o comportamento de cordeiro. Trazemos notícias positivas, sim, mas também é nosso papel colocar o dedo na ferida, investigar, fiscalizar, chamar a atenção de quem de direito sobre os problemas que acontecem no município.

Recentemente, por razões até agora não comprovadas – embora muito faladas – a Câmara Municipal extinguiu as suas publicações oficiais no Jornal do Porto, como vinha fazendo. Aprovou-se em tempo recorde a criação do chamado “diário eletrônico”. A celeridade da apreciação da matéria, por si só, já causa estranhamento. Foi um pequeno golpe na imprensa escrita ferreirense, que há décadas gera empregos diretos e indiretos, paga seus impostos e fomenta a economia local.
Desde a aprovação, uma empresa de fora faz o serviço. E, repetimos, até agora ninguém apresentou os custos disso, ou seja, uma planilha de gastos com funcionários/equipamentos/manutenção, energia, cópias em papel, depreciação de bens móveis públicos e nem como serão registradas suas publicações para que tenha o respaldo jurídico, tenha legalidade oficial como o da guarda permanente dos mesmos.
Agora, esta semana, um cidadão que se diz professor em Porto Ferreira, que reside há 3 anos na cidade, encaminhou à mesma Câmara um pedido para que os vereadores averiguem os gastos do Poder Executivo com as publicações oficiais no Jornal do Porto. No ofício, o cidadão cita o exemplo da criação do “diário eletrônico” da Câmara e, como um papagaio, repete os mesmos argumentos de que isto gera uma suposta economia. Igualmente ao Legislativo, o tal professor também não apresenta nenhum número para comprovar o que diz. Unzinho sequer.
A publicação de atos oficiais na imprensa escrita vem de décadas em Porto Ferreira. Há mais de 20 anos, pelos menos, elas são feitas por meio de licitações e contratos. Em todo este tempo, nunca houve qualquer irregularidade nesta prática. Todos os anos os contratos são auditados pela equipe de fiscalização do Tribunal de Contas. E, voltamos a dizer, nunca houve irregularidade. Mas é ótimo alguém, neste momento, solicitar esta fiscalização. Isto só fortalecerá e referendará a lisura com que sempre o Jornal do Porto participou destes certames.
A Constituição de 1988 trouxe a publicidade dos atos das administrações públicas como um princípio constitucional. De tão importante, em alguns governos, como na vizinha Pirassununga, existem veículos impressos e eletrônicos oficiais para divulgação dos atos. Ou seja, quanto mais abrangente em suas formas, maior será a publicidade das matérias e, por consequência, o público atingido, garantindo assim a plenitude do princípio constitucional. Você nunca conseguirá ampliar a divulgação dos atos públicos cortando os veículos de informação. Parece óbvio até para uma criança entender essa lógica. Menos para parte dos vereadores locais.
A imprensa escrita local sempre tem desempenhado e continuará a desempenhar uma função social de extrema importância para uma cidade, pois constitui um elo muito estreito entre cidadãos dessa comunidade através de notícias várias de caráter regional e local. Escrever é assentar ideias simples ou filosóficas; é dá-las a conhecer aos outros cidadãos; é aceitar o diálogo e o debate de ideias, é qualquer coisa que se lê, se guarda em recorte e se eterniza na memória porque se pode reler, consultar.
Um artigo de jornal é quase como um livro que se guarda na estante, sempre à nossa disposição. O jornalismo escrito é perene. A imprensa local mexe com os interesses dos trabalhadores, das reivindicações dos moradores; dá-nos conhecimentos dos fatos da nossa terra. Em suma, a imprensa local continua muito mais humanizada, e queira ou não, contribui e muito para o desenvolvimento de uma cidade.
Existem muitos casos em que jornais tradicionais de cidades pequenas foram absorvidos pelo próprio Poder Público, como forma de protegê-los de uma extinção e perpetuar sua importância, seja histórica, seja pelos relevantes serviços que oferece. Por aqui, a imprensa escrita vem sendo tratada com desrespeito e desimportância por uma parcela de nossa classe política. Não vamos apontar motivos, mas sim deixaremos uma pergunta: a quem estamos incomodando?
A imprensa escrita ainda não está morta. E as tentativas de torná-la fraca só lhe trazem certezas.

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