Mais uma pausa na saga músico-pessoal – porque senão cansa – para falar um pouco sobre este grande dia especial do calendário nacional: a Black Friday. Sim, porque andei lendo por aí que este evento veio mesmo para ficar, gostando os puristas ou não.
Da mesma forma que hoje temos o Halloween quase institucionalizado – o Dia das Bruxas, para quem “ainda” não sabe – a tal da Black Friday foi absorvida à nossa maneira. Ou seja, estamos deturpando-a aos poucos.

É porque a coisa funciona assim, lá nos Estados Unidos. A Black Friday é um dia em que realmente o consumidor encontra muitos descontos. Mas UM DIA SÓ. E é justamente por isso que conseguem dar muitos e bons descontos. Já aqui, e isso não começou este ano, muitas lojas estenderam o período de desconto para uma semana. E, sim, neste ano teve gente anunciando um tal de Black November! Não preciso nem traduzir, né?
Mas dá para fazer uma outra tradução: já banalizaram o evento. Teve desconto bom no dia, sim, mas também teve semana passada, retrasada, nesta e vai ter semana que vem também. Simples assim. Por isso o brasileiro, com sua esperteza e ironia fina, já faz várias brincadeiras com a sexta negra: Black Fraude, a metade pelo dobro (e vice-versa), entre outras pérolas.
O advento das novas tecnologias e principalmente das redes sociais ajudaram a transformar a Black Friday – queria ver o Lula pronunciar – em algo familiar. Foi tudo muito rápido. Mas sempre tivemos essa mania de copiar as coisas do estrangeiro. Aliás, alguém ainda fala “estrangeiro”? Antes do inglês, a moda era incorporar ao nosso vocabulário palavras do idioma francês, que era a segunda língua em meados do século passado. Chofer, abajur...
E nas últimas décadas o inglês é onipresente. Depois dos computadores, então, quase uma praga: mouse, deletar, inicializar, notebook, site, os exemplos são inúmeros. No comércio, hoje é normal ver numa vitrine da interiorana Porto Ferreira a inscrição “50% off”, para indicar a porcentagem do desconto na peça. Coisa que (quase) ninguém entenderia há umas duas décadas.
As coisas são assim mesmo. Vão mudando e a gente segue, querendo ou não. Então não pega bem você ficar por aí – como eu – metendo o pau numa Black Friday, jurando nacionalismo, usando seu vasto cabedal linguístico ou gastando o vernáculo para defender a última flor do lácio, inculta e bela. Ainda mais se você usar para isso seu smartphone para digitar um post no Facebook!

Por Cléber Fabbri, o Tião, jornalista e funcionário público

 

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