Quando o “irmão” americano foi embora, apareceu a oportunidade de fazer aulas de violão na escola da “tia” Márcia Vanim, que eu já frequentara no judô. Assim, eu e meu “irmão” Elton Guiguer nos matriculamos no curso. Meu amigo começaria do zero. Eu já fazia até pestana, tirava solos e tal.

O professor se chamava João Luiz e era de Luiz Antônio ou Cravinhos, não me recordo. Tocava e cantava muito bem. O bacana era que as aulas eram coletivas, gente de todas as idades. Na nossa turma, puxando agora pela memória, lembro da dona Mercedes Colussi, mãe do Duto, que viria a ser meu amigo/parceiro de Resina, baladas e jornalismo mais à frente. O Elton deve se lembrar do restante da turma, que agora me foge.
“Ué, mas você não falou que tocava tudo de ouvido?” Sim, mas é que foi um curso rápido, talvez um semestre apenas. Depois eu parei, ou o professor parou, não me lembro. Para falar a verdade, no período de aulas eu não cheguei a ver nenhuma novidade que eu não conseguisse fazer sozinho, nas revistinhas ou tirando músicas dos discos e fitas. Era bacana pelo pessoal, mas só.
Teve até um lance curioso. Havia, na verdade, três turmas ao menos. Os iniciantes, os iniciados (era a que eu estava) e uma outra mais avançada, que tinha uns garotos mais velhos que eu, como o Gerson Giacon e o Valdir Carlos Colussi, irmão do Duto, filho da Mercedes. O Valdir, cabeludo na época – hoje um doutor em Física e Medicina atuando nos EUA –, tinha uma guitarra Giannini Stratosonic. Uau! Era raro na época alguém ter uma guitarra. Ainda mais um garoto. E um dia eu fiquei depois da minha aula vendo a dos mais velhos, quando o Valdir pediu para o professor ensinar “Stairway to Heaven”, a clássica das clássicas do Led Zeppelin.
Fui para casa, aproveitei que meu irmão estava em Porto no fim de semana e pedi para ele me ensinar a música. Fiquei a semana inteira tirando e aperfeiçoando cada detalhe, do dedilhado inicial à parte da balada no miolo, até o final pesado, que eu já fazia com palheta no violão mesmo. Na aula do sábado seguinte o Valdir chegou e começou a tocar a música para o professor. Só que tinha uma passagem que ele estava com dificuldades. Então, com o ímpeto de um moleque exibido, comecei a tocar a música no outro lado da sala, sem erros. O Valdir parou, olhou pra mim com uma baita cara de bravo e na hora enfiei a viola no saco (literalmente) e corri para casa. Não voltei mais... rs.
A minha turma fez um recital no final do ano no salão do PFFC. Lembro que entre as músicas tocamos “As Rosas Não Falam”, que minha mãe adora, e “Andanças”. Todo mundo tocava e cantava. Tinha uma música que eu fazia um solo, mas nem lembro qual. Era o máximo fazer um solo.
Apesar do recital, não o considero meu primeiro “show”. Que aconteceu no ano seguinte, 1982, no Sud Mennucci, onde eu cursava a 6ª série. Era uma gincana que movimentava todos as salas e períodos. Uma delícia. Eu já estava tocando bem. Levava o violão para a nossa classe (QG) e ficava o dia inteiro tocando Pepeu Gomes, Blitz (explodindo), Roupa Nova, 14 Bis, A Cor do Som...
Até que uma das provas era justamente interpretar uma música ao vivo, na frente de toda a galera. Podiam convidar gente de fora, mais velhos etc. Mas, como eu estava o dia inteiro naquele din din don por ali, decidiram que eu mesmo iria representar a equipe. Não sei o porquê até hoje, mas escolhi uma música do Fábio Júnior! “Olha, menina, mostra o seu pensamento...” começava a letra de “Seu Melhor Amigo”.
O “show” foi à noite, no galpão da escola. Quando chegou minha vez, colocaram um microfone entre minha boca e o violão. O rapaz perguntou: “Tá bom aqui?”. E eu: “Tá”. Ora, como saber se estava bom, sem testar? Era o medo de testar e ver que não estava, claro. Olhei para frente e levei um susto com o mar de gente ansiosa esperando, gritando. Olho para um lado e vejo meu irmão Vlamir e o Marco Riolino na plateia (eles iriam tocar naquela noite no Calabar, ali ao lado, com o glorioso Fruto da Imaginação). Eu, o garoto tímido que sou até hoje, engatei uma primeira e mandei ver, sem tremer, sem gaguejar, sem errar. Que glória! Aplausos esfuziantes no final. Pronto, no baixo dos meus 12 anos, eu era um artista.
No próximo capítulo: eu no Fruto.
Escrevi ouvindo: Mutantes (sempre escrevo ouvindo música e vou colocar aqui o som do momento do texto).

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