Acontece uma coisa curiosa comigo há uns bons anos, sobre a perda de amigos.
Se fosse para dividir a minha vida em etapas, seriam muitas. A gente tem a etapa da escola (e cada escola que você foi é uma etapa), as fases do trabalho (cada emprego, ainda mais se você não mudou muito de lugar, patrão, etc.).

E para todo mundo que é casado, como eu, sintetizando ao máximo a vida pode ser dividida entre o antes e depois do “sim”. Solteiro e casado. Pelo menos para mim, foi um rompimento muito grande.
Casei-me praticamente aos 33 anos de idade (faltavam 5 dias). Antes disso, pouco fiquei “preso” a namoros muito longos. Tem gente que vive a vida inteira namorando firme. Comigo era o contrário. Talvez porque no fundo eu sabia que chegaria a hora de juntar com minha metade, o que realmente aconteceu. E assim já estamos há 16 anos. Pouco, para quem vai passar esta e outras vidas ao lado dela (como ela sempre diz, e eu concordo).
O fato de casar me afastou bastante daqueles que chamo de “amigos da vida”. E olha que antes disso eu tive a sorte de viver praticamente numa irmandade. Muitos me cobraram e cobram até hoje uma presença maior. Mas assim foi minha vida desde então.
Digo tudo isso para contextualizar e voltar à ideia inicial. As fases da vida. Até eu me casar, perdi pouquíssimos amigos, graças a Deus. Sim, estou falando da morte.
O “problema” começou depois. André, Fininho e, mais recentemente, Raquel, Betão e Vicente. Em comum, pessoas muito próximas. Mas da fase solteira. Embora os amigos de verdade, tempo e distância não afastam. Carregamos sempre conosco em algum lugar. A cada vez que cruzo com algum deles, é como se o tempo não tivesse passado.
Quando se foram, por eu ter ficado distante fisicamente, o impacto da perda foi menor. Parece que foram viajar, morar um tempo longe. E a qualquer hora vamos nos encontrar novamente. Esta é a sensação. Não sinto tanto a falta porque em algum ponto da vida deixei de conviver com eles cotidianamente.
Obviamente, não é por isso que deixei de gostar, sentir a perda ou a morte. Nunca. Mas é uma forma diferente de lidar com isso. Certamente melhor do que se tivesse acontecido antes, na outra fase. Talvez o crescimento com a vida faça com que a gente também entenda melhor a partida, mesmo não concordando com ela.
PS: no último sábado fez 10 anos que perdi um dos maiores amigos que tive, o André Ruiz. Incontáveis vezes escrevi sobre ele nas minhas colunas de memórias musicais, porque ele fez parte de várias e ótimas ocasiões. Como pessoa, não preciso nem falar o que era, pois todos sabem. Fiquei emocionado com um texto que seu irmão Daniel escreveu em seu Facebook no sábado por conta desta década sem sua presença física. A saudade sempre vai ser enorme, mas sem dor. Fica a gratidão pela sorte de poder ter convivido e vivido muitos momentos.
Por Cléber Fabbri, o Tião, jornalista e funcionário público.

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