Sou um admirador da administração pública e dos gestores públicos brasileiros. É impressionante, em minha opinião, como nossos mandatários conseguem manter um mínimo de ordem e funcionamento nas cidades, nos estados e no país, com essa barafunda de códigos, leis, estatutos, regulamentos, decretos, portarias, resoluções, atos administrativos, súmulas vinculantes, despachos, processos, ordens judiciais; tudo isso sujeito a interpretações, recursos, recursos de grau superior, recursos extraordinários, apelações, embargos, alegações, ufa… E ainda tem judiciário legislando, legislativo legislando em causa própria, ministério público administrando; e o mais difícil: o julgamento popular.

Porque no Brasil é assim: o cidadão sugere educadamente o conserto de ruas da cidade: “Essa porcaria de prefeitura, com esse prefeito incompetente, não consegue nem tapar os buracos da rua”. Daí o prefeito faz uma peregrinação em secretarias, ministérios, congresso e assembléia para tentar levantar recursos, pois o orçamento municipal mal dá para a folha de salários. Se consegue uma emenda, faz um recapeamento, enquanto o cidadão reclama das interdições, da sujeira, do barulho, da demora, das pedrinhas, da emulsão asfáltica… Quando tudo fica pronto, o cidadão agradece e elogia: “Esse prefeito irresponsável transformou a avenida numa pista de corrida. Ainda vai matar alguém.” E exige a instalação de redutores de velocidade.
Esse cidadão é o mesmo que xinga nas redes sociais por causa da sujeira e das enchentes, mas joga seu lixo nas ruas e nos rios; reclama do serviço de cata-galhos, mas joga seus restos de jardinagem no dia seguinte à passagem do caminhão. Reclama que a cidade não tem coleta seletiva de recicláveis, mas briga para que a prefeitura não instale as lixeiras perto de sua casa. Denuncia a falta de árvores, mas proíbe a plantação de mudas na sua calçada: quer a sombra, mas não quer varrer as folhas. Considera os serviços público deficientes e de má-qualidade; mas experimenta falar em aumento de impostos…
Com tudo isso, é um milagre que alguns de nossos municípios e estados ainda não tenham entrado em colapso, e que ainda haja alguma governança, embora essa parte dos cidadãos não reconheça.
Até a semana que vem.
Marcelo Mesquita
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