Dois meses a mais na cidade de Porto Ferreira. Um tempo a esculpir o passado com gratas recordações.
Lembranças de uma pequenina cidade onde se falava possuir sete mil habitantes no antigo ano, mil novecentos e cinquenta e quatro.

Explodia um horizonte de oportunidades. A industrialização começava a se instalar definitivamente e engraxava os componentes para erguer-se.
Sonhos mirabolantes de empreendedores embalavam o desenvolvimento, e a terra de João Ferreira alongava suas ruas para agasalhar um contingente grande de pessoas que chegavam das regiões mais próximas, diariamente, para buscar trabalho.
Fazendo parte deste grupo, no dia 4 de fevereiro de mil novecentos e cinquenta e quatro, cheguei à cidade, para trabalhar na Nestlé, recém estabelecida, prometendo-me uma carreira cheia de oportunidades.
Estabeleci-me no Hotel Cheffer, esquina da Avenida 24 de outubro, com tratamento integral, os proprietários, Dona Irma e o esposo Senhor Júlio me acolheram com carinho e cortesia. Juntos lá já estavam o Ismael Perina, Arlindo Correia, Luiz Guiduli e Francisco Borri, Neto Luiz Silva, Salomão, Manoel Gonçalves, todos prestando serviços à Nestlé e vindos de outros rincões.
Passado um tempo, a Companhia alugou uma casa atrás da Igreja Matriz,onde montou uma república para os funcionários que moravam fora. Tive a oportunidade de conhecer pessoas novas. Conheci o Paschoal Bruno, o Si Teixeira, Tota Teixeira, Pedrinho Naif, Luis Ramos, João Toffoli, Ney Falco, meus primeiros amigos ferreirenses.
No trabalho, os meus colegas, Orindo Francisco de Oliveira, Francisco Borri Neto, Sérgio Marques Castelhano,Luiz Silva, Arlindo Correia, Luiz Guiduli, Aparecida de Toni, Griseide Moreschi, Octacilio Carlos Teixeira, Durval Prado, Breno Rosa, Alípio Carlos Rosa, Adelma e José Voltarelli o nosso Chefe Mário Moraes e os queridos e atenciosos serviçais que servia cafezinho no escritório, o Senhores Genésio Mourão e Elias Brambila. Foram tantas as pessoas que me cercaram de
amizades e que ficaram indelevelmente em minha memória, mas citá-las todas é impossível. O meu cérebro, aos oitenta e sete anos, tem me traído, apesar de vez por outra aflorarem em minhas lembranças, imagens, nomes e momentos eternos.
Lembranças eternas, muito trabalho com muita garra para crescer, assumir novos postos e conquistas internas.
Depois de dois anos, casei-me em quatro de fevereiro de mil novecentos cinquenta e seis. Minha esposa Nereide sentiu bastante a mudança.
A cidade oferecia muitas oportunidades de trabalho, mas pouco possuía para oferecer aos seus habitantes.
Os bairros se desenvolviam e novos loteamentos surgiam. No entanto, as ruas eram de terra, sem calçadas, sem saneamento básico ,e a água não era tratada o que ocasionava problemas seríssimos à saúde. O Posto de Saúde estava sempre repleto de pacientes com amarelão.
No início de casados, gastávamos no Armazém do Constantino João, depois passamos para venda do Dino Cunha e mais adiante na Cooperativa da Nestlé. A farmácia que nos servia era do João Querubim.Os médicos que nos atendiam, Dr. Plinio Góes Valeriani, pela Nestlé e Dr. Mozart
Bágio e eventualmente o Dr. Montenegro. Gastávamos na loja do Elias e Casa Glória.
Não nos esquecemos da Padaria do Chico Gentil, Quitanda do Dudu Carandina, Açougue do Abílio Carandina, do Bar do Gerola, Casa José Baixo, Loja de Calçados do João Tofoli, Restaurante do Verechia, da Alfaiataria do Ney Falco, Casa Glória, Açougue do Otávio Bellini e da antiga Igreja Matriz com o Padre Nestor Cavalcante Maranhão, que muito trabalhou para a construção da nova Matriz de São Sebastião e o nosso querido Padre Pavezi.
As grandes personalidades: Padre Pavesi, Dr. Erlindo Salzano, seu pai Pachoal Salzano, Dr. Djalma Forjaz, seu filho Dr. Nicolau, Mário Boreli Thomaz, Miguel Boreli,Mário Moraes, Chefe Administrativo da Nestlé, Johan Van Hill, Gerente da Nestlé, Syrio Ignácios, (um dos maiores oradores que já pude ouvir), Joaquim Coelho Filho, Oswaldo Cunha, os Peronde, João Teixeira, Dorival Braga e outros que a memória me trai.
Os jogos de futebol aos domingos, grandes partidas com o Porto Ferreira Futebol Clube. Excelentes jogadores que vestiam a camisa alvinegra com amor, garra e técnica: Dionísio, Telão, Moacyr Porto,
Edivur, Pechincha, Pinhata, Biba, Adélcio, Si e Tota, entre tantos outros que se evolaram no tempo.
Os passeios na Mata Santa Mariana. O ar puro, o cheiro agradável da natureza, pequenos animais a movimentar-se, pássaros cantarolando, um gosto de vida especial, quando íamos juntos com o saudoso amigo e vizinho, Lindo Liberalli, colher orquídeas e mudas das mesmas, para ornamentar as nossas casas.
A primeira casa construída para a minha moradia. Tempo difícil para realizar o sonho da minha primeira casa na Rua José Teixeira Teixeira Vilella Pai, entre as ruas Francisco Prado e Carlindo Valeriani, onde havia na quadra somente a casa do Dr. João Vilas Boas e a segunda construção foi minha.
Semanalmente líamos o Jornal O Ferreirense,para curtir as notícias da cidade editadas pelos irmãos Fenili.
Às margens do Rio Mogi-Guaçu, os ranchos bucólicos, as pescarias com os amigos e famílias. A velha Ponte de Ferro, marco histórico com o saudoso Porto de João Ferreira, onde desembarcava a riqueza
brasileira, o café procedente de outros municípios, para transporte ferroviário através da Cia Paulista de Estradas de Ferro.
As bitolas assentadas na Estação Ferroviária, que melancolicamente desapareceram no decorrer do tempo. Bitola larga para a linha mestra, São Paulo/Descalvado. Bitola estreita para a linha Porto Ferreira/Santa Rita do Passa Quatro. Lembro-me, com tristeza, da última viagem do trenzinho de bitola estreita, descrito no meu livro “Labor, Poesia e Amor”.
No mês de maio de mil novecentos e sessenta e sete, mudei-me de Porto Ferreira, onde nasceu o meu tesouro, quatro filhos: Mozart Alberto, Tânia Maria, Antônio Fernando e Marinela Adriana e onde vivemos encantadores dias de nossas vidas. Havia sido transferido para São Paulo, promovido a um cargo superior.
Tenho andado pelas ruas, bairros e comércio em geral. Senti que a cidade sofreu uma gratificante metamorfose. Cresceu e cresceu em todos sentidos e aspectos. Está linda e ousou a opulência de uma cidade média, chamada “Capital da Cerâmica”.
Nestes dois meses, tive a oportunidade curtir e saborear com papilas gustativas aguçadas, todos os momentos da vida ferreirense, relembrando os anos que passaram, o nosso antigo cotidiano, os amigos, as tardes em que o sol refletia nas águas do Rio Mogi e acordo atônito diante de uma nova Porto Ferreira, que promete continuar avançando para o progresso, para o alto, soberba, sorvendo o cálice do infinito.
Dia sim e dia não, com os olhos ansiosos, deixo uma brisa fresca tocar sutilmente o meu rosto e vou fazer uma leve caminhada pelas ruas, para a minha alma gozar as delícias de um tempo que passou junto com tantas manhãs, guardadas em meu coração debaixo de um céu azul de anil e do calorzinho amigo ferreirense, em nome da saudade que ficou.

Antonio Carniato Filho, 05 de Maio 2019

 

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