O promotor de Justiça Dr. Gustavo Luís de Oliveira Zampronho, da Comarca de Porto Ferreira, deu detalhes com exclusividade ao Jornal do Porto sobre a prisão da médica Maria de Lourdes Peloso Pereira, que ocorreu na cidade de Boa Esperança (MG), na segunda-feira (6).
Ela é acusada de participar do assassinato do marido, o também médico Marcelo Suhet Pereira, que ocorreu em 5 de setembro de 1996, em Porto Ferreira. Ele foi morto com três tiros na cabeça, sendo que o acusado por ter feito os disparos foi o médico Celso Luís Ramos Sampaio, que na ocasião era diretor do Pronto-Socorro na cidade.

Segundo o promotor, ele leu em algumas matérias jornalísticas que Maria de Lourdes estava com mandado de prisão expedido em seu desfavor desde 2014, enquanto exercia normalmente a profissão de médica nas cidades de Boa Esperança e Três Pontas, ambas em Minas Gerais, mas esse dado não era preciso.
“Na verdade, depois de receber um e-mail do pai da vítima, no dia 01/05/2019, no dia seguinte tive o primeiro contato com o antigo processo e notei que a defesa vinha se utilizando de uma enormidade de recursos nos Tribunais Superiores para atrasar o trânsito em julgado da decisão e, assim, evitar que a condenada fosse submetida ao cárcere, pois aquele mandado de prisão de 2014 não tinha mais validade”, conta o Dr. Gustavo.
“Foi então que, valendo-me do entendimento conhecido do Supremo Tribunal Federal de que a pena pode ser executada provisoriamente depois da confirmação da condenação em segunda instância (caso “Lula”), formulei, logo no dia 2 de maio, pedido de cumprimento de pena, com a consequente expedição de mandado de prisão, afinal a condenação pelo crime é de 15 anos e 02 meses de reclusão em regime fechado”, prossegue.
“No dia 03/05/2019, o Exmo. Juiz de Direito da 1ª Vara de Porto Ferreira acatou o pedido do Ministério Público e determinou o início do cumprimento da pena, com a consequente expedição do mandado de prisão. Na mesma data, iniciei contato com o Ministério Público e com a Polícia Civil de Minas Gerais, passando cópia da ordem e de todas as informações que havia coletado, o que culminou com a prisão da ré no dia 06/05/2019, após excelente trabalho de campo desenvolvido pelos profissionais mineiros. Fico satisfeito em ter feito a minha parte e, tal como afirmo durante os plenários do júri, proporcionado um pouco de sensação de justiça ao pai da vítima (mãe já falecida), que a busca desde 1996 para amenizar, mesmo que minimamente, a dor da perda abrupta”, finalizou o promotor.
Agora, após o cumprimento do mandado, a médica foi levada para o presídio de Varginha (MG), mas deve ser encaminhada posteriormente para um presídio do interior de São Paulo, que segundo a defesa, ainda será definido.
Médicos eram amigos e crime teve grande repercussão na cidade

Na noite de 5 de setembro de 1996, por volta da 1 hora da madrugada, um homem morador de uma chácara ligou para a Polícia Militar informando que um veículo estava parado no trevo do Jardim Paschoal Salzano, na saída para a rodovia SP-215. O homem disse que ouviu uma buzina que vinha do veículo.
A PM foi ao local e encontrou o médico Marcelo Suhet Pereira em seu Escort vermelho, pedindo por socorro por ter sido baleado. Foram três disparos na cabeça, um no tórax e outro na região da cintura.
O médico, que estava consciente quando foi socorrido, relatou aos policiais que havia saído do Pronto Atendimento Médico (PAM) por volta da meia-noite e estava indo para sua casa, em Santa Cruz das Palmeiras. Disse que ao chegar no trevo, viu o seu amigo e médico Celso Luís Ramos Sampaio parado com seu veículo no local, aparentando estar com problemas mecânicos. Sampaio também residia em Palmeiras e era diretor do PS ferreirense na ocasião.
Assim que Marcelo parou o carro, teria sido atingido, ainda dentro do Escort, pelos tiros dados por Sampaio, que fugiu em seguida. Marcelo foi removido para Ribeirão Preto, passou por diversas cirurgias, mas faleceu oito dias depois, em 13 de setembro, aos 32 anos de idade.
Na época do crime, Sampaio negou as acusações. Ele chegou a ser preso ao depor, mas por um outro mandado de prisão que a Justiça de Minas Gerais havia expedido contra ele em 1989, por exercício ilegal da Medicina e falsidade ideológica. Ele conseguiu liberdade e foi preso novamente em 2005, desta vez condenado pelo homicídio ocorrido em 1996 em Porto Ferreira. Nesta época, Sampaio estava trabalhando no posto de saúde na cidade de Jaguaré, no Espírito Santo.
Segundo a acusação, o crime de homicídio em Porto Ferreira foi praticado por dois motivos: Sampaio mantinha um caso com a esposa de Marcelo, a médica Maria de Lourdes, e a vítima possuía um seguro de alto valor. Marcelo e Sampaio eram amigos e ambos eram casados. Fizeram faculdade juntos no Espírito Santo, juntamente com Maria de Lourdes, e depois vieram para o interior de São Paulo. Sampaio teria se envolvido com a mulher do amigo e depois tramado a morte dele.
Sampaio foi condenado a 16 anos de prisão e cumpriu parte da pena antes de voltar ao Espírito Santo, seu estado natal.
Sampaio está preso e aguarda outro julgamento por homicídio

O médico Celso Luís Ramos Sampaio está preso preventivamente no Espírito Santo, aguardando pelo julgamento de outro crime hediondo, em que é acusado de matar a jovem Rayane Berger, que tinha 23 anos quando foi morta, em 2015.
Eles moravam juntos em Vitória e tinham um relacionamento há mais de 3 anos. Rayane foi encontrada morta dentro do carro dela, que estava submerso em um rio que corta a localidade de Ilha Berger, em Alto Rio Posmosser, no dia 7 de julho de 2015.
Sampaio foi preso em 28 de abril de 2017, enquanto trabalhava no hospital de Santa Maria de Jetibá, uma cidade serrana capixaba com cerca de 40 mil habitantes.
De acordo com o pai da jovem, Wilson Berger, a família já suspeitava de que o médico teria assassinado a filha. “Exames constataram que minha filha foi morta com superdosagens de remédios. O assassino apenas fez parecer que ela teria sofrido acidente, mas testes feitos no carro pela própria fábrica constataram que o veículo desceu a ribanceira a 20 quilômetros por hora antes de cair no rio. Isso é mais uma prova de que Celso colocou o carro no automático, com ela já morta, e soltou o freio de mão”, contou o pai.
Segundo Berger, câmaras de monitoramento da cidade também flagraram um homem de blusa branca dirigindo o carro dela, na noite anterior ao suposto acidente, com a jovem desacordada no banco do carona. Além disso, inconsistências no depoimento do médico também levantaram suspeitas dos investigadores.
Além de atuar no hospital de Santa Maria de Jetibá, Sampaio também trabalhava nos municípios de Linhares, Jaguaré e São Mateus. Depois do crime ele continuou atendendo na cidade. Após ser preso, ele foi encaminhado para o Centro de Detenção Provisória no município de Viana.
Na ocasião desta nova prisão, em 2017, uma irmã de Marcelo Suhet Pereira disse não se surpreender com a notícia de um novo crime supostamente praticado por Sampaio. “Ele é louco. É um homem alto, charmoso, consegue envolver as mulheres”, comentou.
A família de Marcelo Suhet acreditava que Celso não se livraria mais da prisão. “Nossa família nunca se recuperou do crime. Meu irmão teve uma filha, com quem nunca mais tivemos contato. A mãe dela acho que até saiu do país com a menina, que hoje deve ter uns 20 anos de idade”, disse em 2017.
Na ocasião desta nova prisão, o Jornal do Porto fez uma reportagem sobre o assunto e apurou que a viúva de Marcelo, Maria de Lourdes, residia em Minas Gerais, assim como a filha do casal.

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