Antes de entrar em nossas aventuras internacionais (Descalvado, Pira e Santa Rita) lembrei-me de uma das melhores memórias que tenho com o Resina, que foi um show que fizemos logo depois da apresentação no Dia S, da Sindigatos.

O local, novamente, foi a boate Royal – o meu “revisor” Duto, talvez o único junto com minha mãe que esteja acompanhando esta série, o que me faz perder 38 leitores e meio, lembrou que Derrepente era a boate do Cir Acrani no Cine Grêmio, e que sobre o Tremendão o nome era Royal; nada como ter um suporte fosfosol da qualidade do Dutinho.
Pois bem, preciso fazer um aparte para explicar a quem nasceu dos anos 1990 para cá o que era uma gincana municipal. Não era uma disputa qualquer. Era como Copa do Mundo. Sem exageros. A cidade, literalmente, parava. A gincana alternava com a Feife, sendo um ano uma coisa, outro ano outra. O povo, geralmente os jovens da cidade, mas não só, se dividia em quatro ou cinco equipes. O legal é que naquela época todo mundo se conhecia. A população da cidade era pouco mais da metade do que é hoje.
Como disse em outra coluna, nós, da banda Resina, éramos da novata equipe WC, que surgiu fruto de um bloco de Carnaval. Detalhe: nem todos do bloco gostaram da ideia de transformar o grupo em equipe, mas isso é outra história. Os líderes da WC eram o Vitor Sanaiotti, marqueteiro da banda, o Marco Riolino, entre outros. Ou seja, estava tudo em casa. O QG era surreal: a antiga igreja da Congregação Cristã do Brasil na avenida Dr. José Ferreira de Azambuja (hoje Avenida Gastronômica), que seria demolida, em frente à casa do Vitão.
Todo aquele mês de julho de 1987 foi uma agitação total por causa da gincana. Logo depois do Dia S já tínhamos agendado novo show na Royal. Seria o segundo ali, o primeiro com o Duto no vocal naquele antro da curtição. O restante da banda, só para quem perdeu alguma coisa, era eu na guitarra e vocal principal, Cláudio Lepri na outra guitarra, Júnior Suzigan no baixo e o André Ruiz na bateria.
Lembro que foi um show à noite (sexta ou sábado). Estávamos muito animados, porque o Dia S tinha sido legal, ficamos mais conhecidos etc. e tal. Montamos a parafernália de som do seu Valdemar Lepri durante o dia e chegamos bem antes da hora para o show que prometia. A 15 minutos da hora marcada, ninguém, público zero! Ok, vamos aguardar. Deu a hora e... nada! Uai, cadê o povo?
Foi então que alguém da turma chegou com a notícia: algum beócio foi ao QG da WC e espalhou que nosso show na Royal era em prol da Sindigatos! Confundiram, inventaram, distorceram tudo. “Fake news” pré-internet. Não tinha nada a ver. Participamos do Dia S numa boa, mas não tínhamos ligação com a Sindigatos. Pelo contrário, a gente não saía do QG da WC.
Foi então que o seu Walter, pai do André, nosso “manager”, teve a ideia genial. Falou para o mesmo garoto que trouxera a notícia: “Volta lá e avisa que quem estiver com camiseta da WC paga meia entrada (e acho que liberou para a mulherada)”.
Como o QG era ali do lado do Tremendão, não se passaram nem 15 minutos e uma avalanche de gente começa a subir as escadas da Royal. Todo o pessoal com camiseta amarela da equipe. O local ficou apinhado. A mulherada se espremeu na frente do palco e começou a cantar e erguer os braços só com o som de fundo do palco. Não tinha cenário mais animador. Começamos o show imediatamente e a recepção foi a melhor possível. A gente se entreolhava no palco e não acredita, não tirava o sorriso do rosto. Parecíamos pop stars. E foi assim até o final.
A coisa deu tão certa que nos dias seguintes a gente gravou no estúdio do meu irmão e do César Riolino a música que a WC usou no desfile final da gincana. Uma versão de “Zanzibar”, da Cor do Som, num ritmo mais puxado para o frevo: “No vale do Moji, terra dos guaranis...” Não ganhamos a gincana. Longe disso. A Sindigatos desbancou uma invencibilidade da 69, botando o Fefo e banda numa carreta no desfile final. Mas eu nunca me diverti tanto como naqueles dias.

Obs: O meu querido Walter Ferreira da Silva me presenteou semana passada com várias fotos da banda. Vou escanear e começar a publicar junto com a coluna.
Escrevi ouvindo: vou parar com o “escrevi ouvindo”. Já deu.

Por Cleber Fabbri - Jornalista

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