Retomando de onde paramos. A estreia do Duto como vocalista do Resina, em nosso segundo show como banda, seria no Dia S, o festival de rock que o Sindigatos preparou na praça da rodoviária. No mesmo dia, não me lembro se antes ou depois da apresentação do Resina, eu também toquei com o grupo formado por mim (baixo), meu irmão Vlamir, o César Riolino e o André Ruiz na bateria.

Era uma tarde fria e nublada de julho de 1987. Enfim, chegou a hora. Praça lotada. A primeira música era “Stairway to Heaven”, o clássico dos clássicos do Led Zeppelin. O Duto era o anti-pop star. Chinelo de enfiar, calça de moletom, a indefectível bolsinha hippie de couro no ombro. Pego minha Les Paul Giannini e começo a dedilhar a introdução. O maldito cabo ou a entrada dele na guitarra começa a zumbir e cortar o som. Eu continuo. A mão direita começa a tremer no dedilhado. A precisão vai pro saco. O Duto entra e não faz feio. Mas os zumbidos e cortes de som continuam. Quase pânico.
Então vem do fundo do palco o gênio Valdair Casemiro, cata o microfone e começa: “Para o som! Para o som!”. Gelei. Tinha um certo trauma dessas intervenções, digamos, não programadas do Valdair, depois de um festival em Santa Rita quando ele criou uma certa confusão na apresentação do Fruto da Imaginação. Pensei: “Será que esse cara vai aprontar de novo?”
Muito pelo contrário. Fez um discurso mais ou menos assim: “Pessoal, esta música é muito linda e eles ensaiaram bastante. Vamos resolver o som e eles merecem começar de novo”. Aplausos e gritos efusivos na plateia. Aquilo deu uma relaxada. Arrumaram a entrada da guitarra – certamente deve ter sido o “santo” César Riolino – e voltamos a tocar. Para não tremer de novo, fiz a introdução na palheta mesmo. Foi tudo bem até o final. Fizemos sucesso mais uma vez. Tocamos para um público novo e ficamos mais conhecidos.
Naquele início de banda lembro que tocamos outras vezes no Derrepente, em cima do Tremendão. Teve uma vez, numa tarde de domingo, que dividimos o palco com outra banda da cidade. Se a memória não falha, se chamava Fusão. Os integrantes eram todos amigos nossos. O saudoso Dênis Azevedo (vocal) e seu irmão Jé (bateria), mais o César Cardoso (vocal), o Fabrício Marquesini (guitarra) e o Júnior Artêmio (baixo). Na foto, são eles tocando no palco e a gente junto com a galera assistindo (eu sou um dos mancebos ali de costas).
Outro local em que começamos a tocar bastante foi na boatinha do Clube de Campo. Mas, no início, nas tardes de sábado ou domingo. Quem nos chamou e viu que deu muito certo foi a Duda Assef, que era a diretora social. Era uma delícia. Lembro que aquilo me ajudou muito a me declarar para a minha mulher hoje, a Aleandra. Eu cantava as letras mais românticas olhando pra ela. Ela pra mim. Para um moleque tímido como eu, que recebeu até o apelido de Patião, aquilo veio bem a calhar.
Nessas alturas também já tínhamos incorporado o Ismael Bezerra como técnico de som. O João Flávio Oyama me emprestava alguns pedais Boss (caríssimos na época). Muitos ensaios durante a semana, a banda cada vez mais conhecida e azeitada. Era hora de ganhar o mundo!
Ok, Descalvado já estava de bom tamanho...
Escrevi ouvindo: playlist de black music, funk e soul (sempre escrevo ouvindo música e vou colocar aqui o som do momento do texto).

Por Cleber Fabrri - Jornalista

0
0
0
s2sdefault