Extasiado com a minha estreia no Casa Rock em Casa Branca, era hora de sair tocando por aí. Estabelecemos uma rotina regular de ensaios na casa do Ricardo e isso foi nos aproximando como amigos que nos tornamos – e como eu sempre digo, esta é a melhor parte de toda banda e blá blá blá...
Legal também porque passei a conhecer um pessoal novo, amigos dos novos amigos de banda, que acabaram tornando-se meus amigos. E amigos meus viraram amigos deles, claro.

Era hora de começar a tocar novos sons e excluir algumas músicas que não ficaram boas ou que não eram muito do agrado de todos. Uma das músicas que eu adorei tirar – aqui, o verbo “tirar” não tem significado de “retirar”, mas sim de “aprender” como tocar – e ficou ótima foi “What Is And What Should Never Be”, do Led Zeppelin. Também começamos a tocar Deep Purple, Aerosmith, Guns (o Ricardo gostava muito desses dois últimos). E a Jana trouxe Alanis Morissette, entre outras.
Provavelmente, o primeiro show que fiz com a banda em Porto Ferreira deve ter sido no Sexta Bar. Estávamos no final de 1999. Mas o que fez o nome Casa Rock pegar mesmo foi uma apresentação no Clube de Campo das Figueiras.
Naquele ano, o dia 24 de dezembro, véspera de Natal, caiu numa sexta-feira. Não lembro se foi na quinta ou na própria sexta-feira que surgiu um convite ou o Adilson, pai do Ricardo, “cavou” um show para a gente no sábado, dia 25, no clube. Como não havia sido feita nenhuma propaganda antecipada, era um lance arriscado.
Tocar no Clube de Campo era sempre um grande desejo, mas daquela forma? Em cima da hora? Na ressaca do Natal? Lembre-se que naquela época não havia milhões de redes sociais para a gente espalhar rapidamente uma notícia. E talvez por receio de não aparecer ninguém, o clube foi precavido. Combinou que o cachê não seria um valor fixo. Mas, sim, a gente racharia a bilheteria meio a meio. Claro, depois de descontar os valores de seguranças e outras despesas. Será que ia sobrar algum dindim?
Na época, embora sócio pagasse ingresso (pouco, mas pagava), a possibilidade de tocarmos de graça ou quase isso era grande. Será que daria tempo de o pessoal saber do show? Ok, mas tínhamos alguma coisa a perder? Não. Então, vamos arriscar. E acho que aí entrou em ação a rede de amigos: “Espalhem o máximo possível que vamos tocar no Clube de Campo!”
No sábado à tarde fomos montar o som. O palco ficou no meio do salão, voltado para o bar. Eu olhava aquele espaço e pensava: será que enche? Ou melhor, será que vem alguém? O som era do Waguinho. Na rebordosa causada pelos abusos da noite anterior, montamos tudo e passamos algumas músicas. O som ficou muito bom. Poxa, seria uma pena ninguém aparecer. Mas era essa a impressão, pois quase não passou uma alma no clube naquela tarde.
Dentro desse contexto, um show fracassado parecia iminente. Chegamos por volta das 23h e ficamos aguardando, sonzinho de CD rolando. Meia noite. Ninguém. Olhando pelo vitrô do salão, “opa!”, apareceu um carro. Dois. Três. Que bom, pelo menos os amigos vieram! Quatro, dez, trinta! Caramba!!!
De repente, uma multidão do lado de fora esperando para entrar. Empolgação total. O povo entrou, salão lotado, e despejamos toda a nossa potência, naquele calorão de dezembro. Foi uma consagração. A plateia vibrou muito e acho que nossa qualidade surpreendeu a muita gente. Consolidamos o nome, enfim.
Bem, isso já estava ótimo. Mas lembra que o cachê seria a divisão da bilheteria, já que o clube teve receio de não dar movimento? Pois é. Na época, a gente cobrava uns 200 ou 300 reais para tocar em boteco, e uns 400 ou 500 em clubes. E rachava isso entre os integrantes. Mas, nesse show do Natal, o Papai Noel foi generoso. Acho que cada um da banda recebeu uns 600 reais (quase 2 mil, em valores atualizados). Grana que salvou meu final de ano na praia.
Voltamos a tocar no Clube de Campo outras vezes. Mas com cachezinho fixo... he he he.

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Jornal do Porto TV