Este é daqueles textos que a gente nunca gostaria de escrever. Mas, pela memória da cultura ferreirense e de uma amizade de quase uma vida, farei aqui uma despedida ao meu amigo Marco Antônio Riolino, um irmão que partiu no feriado de 7 de setembro. A história do Casa Rock continua semana que vem.
Nas 34 partes anteriores da saga “A música em mim”, citei o Marco em oito colunas – as partes 3, 4, 5, 8, 10, 12, 13 e 18. Como se vê, ele fez parte da minha formação musical e, como costumo dizer sempre, o melhor de tocar numa banda são as amizades que você faz.

Eu tinha uns 10 anos de idade quando meu irmão Vlamir se juntou ao Fruto da Imaginação, grupo que tinha os irmãos Marco e César Riolino, Zé Renato, Valdair Casemiro e outros integrantes mais ou menos frequentes. O Marco cabeludo já namorava a Tânia e eram um casal de extrema simpatia para com este que vos escreve, ainda uma criança. Aquelas pessoas que você gosta de cara, de graça.
Logo eles se casaram, tiveram dois filhos lindos. Quando eu estava com 14 anos, me convidaram para ser o baixista do Fruto. E o Marco, que era um excelente cantor, resolveu encarar o desafio de tocar bateria. Era um pouco travado, é verdade, mas tinha uma vontade enorme de fazer tudo dar certo. Foi nesta época, de ensaios e apresentações semanais, que meu laço com os irmãos Riolino se estreitou. E nunca mais se desfez.
Depois que o fruto terminou, o Marco continuou incentivando e prestigiando as bandas em que toquei. Em 1987, ele virou o primeiro presidente da equipe de gincana WC e fez uma versão da música “Zanzibar”, da Cor do Som, para o Resina gravar como a música do desfile final da competição.
Lembro que o Marco chegou a ter uma cerâmica literalmente de fundo de quintal, depois abriu uma lanchonete ali na esquina da “pontatória”, com uma casa de madeira pré-fabricada. A seguir mudou um pouco mais abaixo, onde hoje é o Kitai. Passava muito por ali, principalmente no fim de noite, para tomar a penúltima. Afinal, onde mais a gente ouvia um show inteiro do Pink Floyd duas horas da manhã em Porto Ferreira? Toquei algumas vezes ali também, com o César, o André Ruiz, tudo de improviso.
Depois da lanchonete, o Marco foi trabalhar na Prefeitura. E acredito que aí sim encontrou sua vocação. Virou agente cultural e, com todo respeito a todos que militam ou militaram na área, a gente pode definir as políticas culturais da cidade em AM/DM (antes do Marco, depois do Marco).
Batalhou por todas as formas de expressão. Esteve no grupo que criou a Escola Livre de Música e Artes, que hoje ensina de graça mais de 600 pessoas, principalmente crianças e jovens, a tocar, cantar, dançar, pintar, atuar. Só por isso merecia aplausos eternos.
Criou inúmeros eventos, aprendeu muito sobre esta área e fez discípulos. Sempre com competência, mas além de tudo, com muito amor, simpatia. As manifestações agora de sua partida, por uma legião de artistas da cidade, comprovam isso.
Preocupava-se muito com os amigos também. Uma vez montou uma banda enorme, comigo no baixo, acredito que por volta de 2001, só para defender uma música do Valdair na etapa regional do Mapa Cultural Paulista, em Matão. Disse que era uma forma de incentivar e dar uma força pro Val, que já vinha meio debilitado.
Nos últimos tempos eu costumava encontrar o Marco e a Tânia nos supermercados da vida. A gente sempre parava para bater um papo. Ele, toda vez, perguntava sobre os meus filhos e esposa. Não era uma pergunta protocolar. Eu via nos olhos dele a felicidade quando eu contava sobre como estavam os meus pequenos.
Nossa última conversa foi há uns 2 meses. Parecia muito bem. Não fiquei sabendo depois que ele havia ficado doente. Doença que ele já tinha travado uma batalha anos antes, um verdadeiro guerreiro. Por isso o choque, o soco no estômago na noite do feriado, o choro de criança quando veio a triste notícia.
O que me conforta é que o Marco era um ser iluminado, muito evoluído espiritualmente. Por isso tenho certeza que fará uma linda passagem. Eu não fui ao seu velório e sepultamento, e espero que a família me perdoe. Não consegui. Coloquei no Facebook no dia, para me despedir, um trecho da música “Anjos do Sul”, do Sérgio Dias, que gravamos uma versão nos anos 80, em São Paulo. Guardarei eternamente na memória sua amizade, tão linda quanto esta canção, que marcou uma época de nossas vidas. Até breve, amigo!

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